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Uma sucessão de desastres naturais recorrentes tem afligido a humanidade, inclusive nós brasileiros, mas parece que não estamos vendo claramente o que está ocorrendo com nossos semelhantes, nem percebendo com lucidez as conseqüências destes eventos importantes, que têm o potencial de mudar drasticamente as nossas próprias vidas, inclusive para muito pior, mesmo contra a nossa vontade e esforços, caso sejamos nós as vítimas. Afinal, somos muito pequenos para enfrentá-los sozinhos, e também coletivamente, se o fizermos de forma desorganizada.

Quando não somos vítimas, não sentimos tão facilmente o drama dos desabrigados. Há o ditado: o que os olhos não vêm, o coração não sente… Será? Vejamos o que os países em todo o mundo têm sentido com as enchentes, inundações, deslizamentos, furacões, terremotos, tsunamis, etc.

O terremoto seguido de tsunami no Japão ainda não virou lembrança, pois o drama continua naquele país, que luta para sobreviver à tragédia humanitária, econômica e agora os seus efeitos radioativos. Esta última uma contribuição da arrogante crença no controle da humanidade sobre as suas tecnologias supostamente mantida sob rédeas.

Mas vejamos o que também acontece mais perto de nós e dos nossos olhos, muito embora passe despercebido por quase todo mundo nestas bandas:

– Durante os últimos 30 anos há os seguintes registros decorrentes de desastres “naturais” para os países da América Latina e do Caribe:

a) Anualmente 5.000 vidas foram ceifadas;

b) As perdas médias anuais têm sido de US$3.200 milhões de dólares: destruição de habitações, prédios públicos, plantações e empreendimentos; desemprego; perda de arrecadação…;

– As perdas tendem a aumentar devido a:

a) Mudanças climáticas;

b) Processos de desenvolvimento que levam à destruição ambiental em áreas vulneráveis;

c) Rápido crescimento de áreas propensas a desastres (ocupações irregulares de morros e margens de rios e córregos, p.ex.).

– Os desastres naturais ocasionam:

a) Impacto negativo na qualidade de vida urbana e rural;

b) Reduzem o capital social e produtivo de um país;

c) Tendem a afetar mais acentuadamente os segmentos mais pobres da população;

d) Podem produzir impacto de longo prazo sobre o desenvolvimento dos países, pois geram impactos inesperados nas contas fiscais e também nas inversões privadas (vejamos o exemplo do Japão, após o terremoto, seguido de tsunami e acidente nuclear… Fábricas pararam e houve desabastecimento de produtos de alta tecnologia);

– É possível caracterizar o risco;

– É possível a gestão do risco;

– Os indicadores de risco permitem analisar a evolução da situação, comparar um país ou local em diferentes épocas;

– Os indicadores podem ser usados em âmbito local;

– Existem níveis de risco de desastres ambientais significativos nos países analisados da América Latina;

Aparentemente tais riscos não foram até então percebidos em sua verdadeira dimensão pelas pessoas, pelos tomadores de decisão, incluindo os governantes, e pela sociedade em geral;

– Um enfoque proativo de redução do risco, se adotado, pode gerar ganhos econômicos e sociais importantes;

– Podem ser adotadas medidas para reduzir as vulnerabilidades frente às ameaças naturais, as quais podem ser integradas aos programas de desenvolvimento e de reconstrução pós-desastre;

A defesa civil poderia usar ferramenta análoga àquela utilizada na saúde, baseada na mensuração e uso de indicadores de riscos. É aplicada na gestão de programas de saúde pública, inclusive no Brasil:

O primeiro passo é monitorar, mensurar e registrar a ocorrência de doenças na população em geral e nas localidades e pessoas em particular (vigilância). São elaborados planos municipais e estaduais de saúde, para fazer frente aos problemas diagnosticados, os quais guiarão a distribuição e gestão dos recursos públicos e a execução de diferentes programas de saúde, a exemplo do programa de saúde da família, agentes comunitários de saúde, vigilância ambiental, emergências SAMU, etc.

O referido sistema se retroalimenta e é continuamente aperfeiçoado, reduzindo os riscos para a população e favorecendo a solução dos problemas.

No caso dos desastres naturais, não basta desenvolver, registrar, analisar e monitorar indicadores de risco em defesa civil, instituir conselhos de defesa civil, realizar conferências de defesa civil, etc.

Isso porque o assunto requer ação muito bem planejada, coordenada e de ampla cooperação entre esferas governamentais e entre setores de uma mesma esfera governamental, incluindo meio ambiente, saúde, ação social, educação, agricultura e pecuária, reforma agrária, trabalho e emprego, Ministérios Públicos, instituições de pesquisa, etc., além da participação da sociedade civil, organizações não governamentais – incluindo todas aquelas que fornecem voluntários nos desastres naturais e muitos outros.

Só uma abordagem holística e integrada de problema tão complexo pode ser promissora. Sem um correto reconhecimento e definição dos problemas e de suas causas, tudo o mais que fizermos a partir daí tenderá a ser pouco efetivo ou até mesmo inócuo.

Então, lembremos do velho ditado: é melhor prevenir, do que remediar. Mas…

O antagonismo entre cura e prevenção dos males acompanha a humanidade há muito. É do tempo de Hipócrates o registro do antagonismo entre as duas filhas do deus Asclépio: Panacéia e Higéia.

“Panacéia preconizava a medicina curativa, prática terapêutica baseada em intervenções sobre indivíduos doentes, mediante manobras físicas, encantamentos, preces e uso de medicamentos, enquanto …

Higéia, defendia a saúde como resultante da harmonia entre os homens e ambientes, e buscava promovê-la por meio de ações preventivas”

(Fonte: http://www.culturabrasil.com.br/programas/radarcultura/limbo/conhecam-a-arte-de-gustav-klimt-na-pintura-de-higeia-reconhecam-a-sabedoria-higeiana).

Mas, retornando aos indicadores de riscos de desastres:

Podemos concluir, a partir dos estudos do BID e do Banco Asiático, dos quais são originárias as informações sobre indicadores e desastres ambientais no mundo, aqui apresentadas, e da própria observação dos acontecimentos, que

é possível monitorar e mensurar os riscos, os quais devem ser percebidos e reconhecidos como um problema socioeconômico e ambiental

(eu diria que isso é indispensável).

Conhecido o risco, é possível adotar medidas preventivas e práticas adequadas de planejamento e gestão, tanto públicas quanto privadas. Sem prejuízo da eventual adoção de medidas corretivas.

Tornamo-nos assim, discípulos de Higéia.

Prevenindo, minimizam-se os impactos socioeconômicos dos desastres, inclusive aqueles decorrentes das mudanças climáticas, tanto quanto possível com as medidas que estiverem ao nosso alcance.

Também, é bom lembrar que se trata de um caminho difícil, longo e que pode demorar décadas, o mesmo tempo que dedicamos à depredação do meio ambiente. É a velha história da “porta estreita”. Não são comuns as soluções fáceis para problemas difíceis e complexos.

Porém, em troca, ganharemos em milhares de vidas salvas anualmente e também na disponibilidade de valiosos recursos que, poupados do uso corretivo ou curativo dos efeitos dos desastres, podem ser utilizados nos processos de desenvolvimento e promoção do bem-estar social.

Evitamos, assim, a previsível e eterna reconstrução, à semelhança do mito de Sísifo, “condenado a repetir sempre a mesma tarefa de empurrar uma pedra de uma montanha até o topo, só para vê-la rolar para baixo novamente

O outro caminho é nos tornarmos seguidores de Panacéia. Aliás, esta tem sido a preferência da humanidade ao longo da história, e ainda parece ser a escolha preferida da maioria, até hoje.

Mas, atenção! Veja-se a situação das cidades e populações pernambucanas em estado de calamidade pública e situação de emergência, há menos de dois anos desde a última enchente de 2010:

Em 2011 as chuvas destruíram, novamente, aquilo que fora destruído também em 2010 (possivelmente o que também foi destruído em 2005, em 2000, e sabe-se lá em quantas outras enchentes do passado):

“Folha de Pernambuco Digital. Domingo, 15 de maio de 2011. Com as novas chuvas, a sensação de trabalho dobrado. O que se viu nas últimas semanas foi quase um espelho do que ocorreu no ano passado. Novamente, escolas paralisaram suas atividades, cidades perderam acessos, casas foram atingidas e as famílias ficaram desabrigadas. Sem previsão ou qualquer alerta, milhares de famílias foram pegas de surpresa. Assim como o Governo do Estado. Para quem não viveu mudanças, a situação foi ainda pior e alimentou o medo dos próximos invernos. (…) Com as obras iniciadas no final de junho de 2010, os municípios tiveram parte dos acessos restabelecidos através de intervenções emergenciais de recuperação de pontes, passagens molhadas e rodovias. Mas, após as chuvas de abril e maio deste ano, parte do que foi reconstruído chegou a ser novamente destruído.”

(Chuvas: trabalho dobrado na Mata Sul – http://www.folhape.com.br/index.php/noticias-geral/637606?task=view).

Em Barreiros e Palmares, por exemplo, muitas pontes ainda continuavam destruídas, há mais de um ano das enchentes de 2010. Passados mais de 12 meses, havia lugares em que a travessia das corredeiras dos rios era feita em pequenas e precárias embarcações, trazendo risco à segurança e à vida das pessoas. Sem falar que a vida de todos fica mais difícil. Simples tarefas consomem muito mais tempo do que o comum, a exemplo de ir e voltar da escola ou se deslocar até uma unidade de saúde, pois as estradas vicinais e pontes sofreram com o desastre ambiental.

Sem um enfoque preventivo, os desastres naturais, que aumentam cada vez mais em decorrência da ação negativa da humanidade sobre o meio ambiente, guardando estreita correlação com o consumo desenfreado – que é estimulado para termos um “desenvolvimento com crescimento econômico continuado”, tendem a ser um ralo gigante, a sugar eternamente os nossos recursos limitados.

Não é fácil a situação das vítimas, tampouco do Estado, cujos governantes  precisam correr para estancar os danos. Mas, nestes novos tempos, nem Panacéia pode dar jeito nesta situação.

Precisamos desenvolver uma consciência coletiva, de que nossos comportamentos condicionam em grande parte a destruição ambiental e aumentam os riscos de desastres daí decorrentes:

– Destruir as florestas e a mata ciliar aumenta o volume e a velocidade das águas nos rios e agravam as enxurradas e enchentes;

– Construir às margens dos rios e córregos provoca danos ambientais e expõe as pessoas ao risco das inundações e enxurradas;

– Extrair areia dos rios altera a dinâmica das águas e provoca assoreamento dos rios e barragens, agravando as enchentes e os danos por elas provocados nas cidades.

Estamos diante do exercício do nosso livre arbítrio. Podemos:

a) Mudar a história, adotando novos comportamentos no tocante ao consumo, ao convívio com o meio ambiente, à ocupação e uso do solo e mudando o atual modelo de desenvolvimento econômico, típico do capitalismo, que é evidentemente insustentável e já destruiu e comprometeu seriamente parcela significativa do meio ambiente planetário;

b) Ou aceitar a profecia autorrealizável de uma nova Ilha de Páscoa, agora em escala global (Saiba mais em: http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/atitude/conteudo_255142.shtml).

Que caminho você pretende seguir?

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Mal os habitantes da nossa nave Terra principiaram a internalização do grave terremoto seguido de tsunami no Japão em 2011, que ceifou milhares de vidas e causou grandiosos prejuízos econômicos ao país, de difícil mensuração e que certamente produzirá importante impacto global, começaram os protestos contra o uso de energia nuclear, notadamente na Europa, continente que concentra a maioria das usinas nucleares de todo o mundo. Emerge mais uma vez o temor do risco provocado por este tipo de energia, ainda que usada para fins pacíficos, qual seja, a produção de energia elétrica.

Discutia com um colega sobre o assunto e este ponderou que a energia nuclear era uma boa energia. Perguntei se ele ignorava os riscos desse tipo de energia: respondeu que não, mas que ela era importante para todos nós. Perguntei então se menos usinas nucleares representariam menos riscos para a humanidade: respondeu que sim. Em seguida, emendei: se reduzíssemos o nosso consumo, não seriam necessárias menos usinas nucleares?

O meu colega concordou que sim, embora reclamando que não precisaríamos voltar à idade da pedra. Creio que não, respondi, pois não precisamos necessariamente abdicar de todo o conforto que nós conquistamos com o processo civilizatório, especialmente aqueles realmente essenciais. Porém, insatisfeito, apontei para o elevador que esperávamos há algum tempo no 11º andar, gastando parte do nosso precioso bem que é o tempo. E ele próprio imediatamente lembrou, sem que eu usasse qualquer palavra, do absurdo que era pessoas jovens e saudáveis tomarem o elevador para subirem ou descerem do segundo ou do primeiro andar ao térreo e vice-versa, como observávamos corriqueiramente naquele edifício no qual trabalhamos, provocando atrasos no sobe e desce diário de toda a coletividade, tamanho o abuso das chamadas, retenções e do entra e sai dos elevadores. Freqüentemente havia quem tomasse o elevador no segundo andar, subisse ao 11º andar, para então se dirigir ao térreo.

Eis então a questão: não precisamos estar de acordo sobre os benefícios ou malefícios da energia nuclear ou de qualquer outra forma de energia, tampouco precisamos ter pensamentos iguais sobre padrões de consumo e desenvolvimento econômico.

Porém, o consumo irracional, exagerado e o desperdício de recursos é desnecessário e fomenta a destruição de recursos naturais, o que direta ou indiretamente induz o aumento do risco à saúde pública e ao meio ambiente.

Explica-se: o consumo, especialmente o desnecessário, pressuposto do crescimento econômico continuado, conduz ao aumento da destruição de áreas naturais, que serão destinadas à produção de mais energia, e também ao uso de energias perigosas, nocivas ao meio ambiente, potencialmente causadoras de mudanças climáticas ou que ao menos exigem a destruição ou modificações radicais do ambiente natural. São exemplos a energia nuclear, com o temor permanente de vazamentos radioativos; o uso e descarte irresponsável de baterias que contaminam o meio ambiente com metais pesados; ou a energia hidroelétrica que requer a inundação de milhares de hectares de nossas florestas, com sérios impactos ambientais e muitas vezes também sociais.

Precisamos de energia? Certamente que sim. Mas não precisamos de qualquer forma de desperdício.

Ainda que não cheguemos a um consenso sobre uma energia ser boa ou ruim, devemos convir que consumismo e desperdício induzem degradação ambiental, provocam direta ou indiretamente o aumento dos riscos à saúde pública e ao meio ambiente e podem mesmo contribuir para as mudanças climáticas, aumentando os riscos de desastres naturais ligados ao aquecimento global. Como falado em tópico anterior, tudo e todos estamos ligados neste planeta.

Logo, se queremos fazer algo pelo nosso bem-estar e sobrevivência nesta Terra, saibamos que não é possível escolher responsavelmente que tipo de energia teremos, se boa ou má para nós ou para o meio ambiente, enquanto não tivermos consciência de que nós somos os responsáveis, direta ou indiretamente, quer tenhamos consciência disto ou não, pelas decisões dos governos e empresas no tocante à implantação de usinas nucleares, térmicas ou hidroelétricas, cada uma causadora de diferentes tipos de riscos e problemas, por maior que sejam o conforto, ainda que aparente, que elas nos proporcionem.

Não é possível reduzir o número de usinas nucleares ou qualquer outro tipo de usina, para diminuir os riscos e prejuízos para a saúde das pessoas e para o meio ambiente, sem começar pela decisão de mudar os padrões de consumo. Não se trata de ideologia ou de um problema do povo japonês, ou chinês ou de qualquer outra localidade. É um problema seu, meu e de cada um de nós que habitamos este Planeta Terra. Pois a sustentabilidade é incompatível com o supérfluo.

No dia do consumidor, pense nisto e comece a agir, para que usemos apenas o necessário para o nosso dia-a-dia.

As novas gerações assistem online uma sucessão de desastres naturais ou de natureza mista (aqueles cujas causas contribuintes também incluem a atividade humana) que muitos de nós não testemunhamos no passado. Aparentemente não apenas devido às novas tecnologias que permitem a transmissão de cenas assustadoras em tempo real, onde quer que estejam acontecendo no planeta, mas possivelmente porque tais mega-desastres parecem ter sido registrados com maior freqüência nos anos recentes.

Deve haver um montão de teorias e discussões sobre o assunto, mas o propósito do presente escrito é mais o de discutir as possíveis conseqüências gerais destes desastres e alertar que devemos agir e nos preparar para enfrentar o pior, ainda que ele não nos ocorra.

Miremos o exemplo japonês e perguntemos: qual seria o impacto de um terremoto seguido de tsunami, como ocorreu agora em 11/03/2011 no Japão, ou de desastre similar, em nosso Brasil ou na América Latina?

Há indicadores que demonstram que se um desastre natural pode causar efeitos sérios em um país, seus efeitos equivalentes poderiam ser devastadores em um outro, pois diferentes localidades possuem diferentes vulnerabilidades e capacidades de lidar com as catástrofes, incluindo a prevenção, o seu enfrentamento e a recuperação subseqüente.

O BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento considera que o “Risco de desastres naturais continua alto na América Latina e Caribe” e adota indicadores de riscos de desastres naturais para medir tal risco: “(…) se o Peru fosse atingido hoje por um terremoto similar ao que atingiu o Chile mais no início deste ano, poderia sofrer perdas econômicas de até US$ 15,8 bilhões. Um evento semelhante poderia causar perdas de até US$ 5,2 bilhões no México, US$ 3,8 bilhões na Colômbia e US$ 3,5 bilhões no Equador”.

A mensuração dos fenômenos é o primeiro passo para compreendê-los e para lidar melhor com eles. Uma das principais lições que podemos tirar dos citados índices, além do alerta para a necessidade de prevenção e preparação para desastres, é de que tais desastres podem provocar prejuízos em perdas humanas, sociais e econômicas que muitos países não são capazes de enfrentar. Logo, a menos que contem com generosa e ampla ajuda externa, nunca poderão se recuperar. E como vivemos na era global, os efeitos acabam sentidos por todos, de uma maneira ou de outra, mais cedo ou mais tarde.

Um destes indicadores é o Índice de Déficit por Desastres (IDD), que “compara as perdas econômicas potenciais que um país pode sofrer e a capacidade financeira do governo para lidar com esses custos“. Há países da América Latina que possuem este índice com valor superior a um, indicando que as perdas potenciais são maiores que as respectivas capacidades de recuperação.

Lembramos do caso do terremoto do Haiti em 2010, país cuja miséria se agravou sobremaneira após o desastre e parece continuar na mesma situação, especialmente devido a haver pouco interesse econômico em transferir rios de dinheiro para recuperação daquele pobre território.

Há também o Índice de Desastres Locais (IDL), que “avalia os riscos sociais e ambientais derivados de desastres recorrentes de pequena escala, analisando o número de mortes, o número de pessoas afetadas e os danos a casas e plantações“. Estes chamam pouca atenção, especialmente da mídia, mas tendem a ocorrer repetidamente e os seus efeitos cumulativos dificultam o desenvolvimento econômico e social local e podem contribuir para criar a pobreza endêmica. Creio que podemos citar como exemplo o que ocorre nas regiões semi-áridas do Nordeste do Brasil, devido às secas endêmicas.

Um terceiro índice usado pelo BID é O Índice de Vulnerabilidade Prevalente (IVP), que “mede as condições de vulnerabilidade predominantes de um país avaliando a exposição da atividade humana e econômica em áreas sujeitas a desastres, bem como a capacidade de absorver os impactos de desastres. Os três indicadores que formam este índice composto consideram fatores como crescimento demográfico, densidade populacional, níveis de pobreza e desemprego, degradação do solo causada por ação humana, proporção dos gêneros, gastos sociais e seguros de infra-estrutura e moradia”.

Partindo do conceito do IVP, não é difícil entender a grande vulnerabilidade dos países da América Latina, incluindo regiões do Brasil, onde coexistem elevadas densidades populacionais, concentração maciça das populações em grandes centros urbanos que possuem precária infra-estrutura, pobreza, desemprego e ocupação irregular de morros ou áreas sujeitas a inundação, esta última uma busca desesperada por solução para moradia, proximidade do emprego e expectativa de vida digna. É aí que se constrói o cenário dos mega-desastres e os mais desfavorecidos são também os mais vulneráveis, quase sempre.

Finalmente, vejamos o que o BID registra sobre um quarto índice: “O Índice de Gestão de Riscos (IGR) combina várias medidas para avaliar a capacidade de um país identificar e reduzir os riscos, responder a catástrofes e recuperar-se delas e oferecer proteção financeira e transferência de risco. Todos os países analisados pelo índice apresentam níveis insatisfatórios de gestão de riscos de desastres”. Registro que o Brasil não foi avaliado.

A esta altura você já deve estar perguntando: e daí? O que é que eu tenho a ver com isto?

Eu diria que tudo, pois embora pouco provável que ocorram no Brasil terremotos ou tsunamis como os da Indonésia, Haiti, Chile e Japão, as enchentes das regiões Nordeste, Sudeste, Sul, Norte ou Centro-Oeste podem afetar qualquer um de nós. E também estamos sujeitos a outros tipos de catástrofes. Para quem procura exercer a empatia, é possível imaginar o sofrimento e desgraça que se abatem sobre as pessoas vítimas das emergências e calamidades públicas. Para quem tem maior dificuldade em sentir a desgraça alheia, há outros argumentos.

Além da solidariedade requerida de todos nós cidadãos para com os povos atingidos (num futuro post falarei sobre a importância do voluntariado nas calamidades públicas), precisamos nos preparar para enfrentar os desastres naturais. Como vimos, quanto mais bem preparados estivermos, menores serão os prejuízos, mais rápida a recuperação e maior a chance de rápido retorno à normalidade. O outro caminho seria pagar para ver, correndo o risco de nunca mais nos recuperarmos, ou coisa muito pior.

Por vezes pensamos que estamos totalmente seguros e que nossas vidas jamais sairão dos trilhos em que se encontram. Torço que seja assim para cada um de nós.

Mas nem sempre é assim. Veja abaixo a “vida fora dos trilhos e de pernas para o ar” em Branquinha, Alagoas, em decorrência das enchentes em junho de 2010: um tsunami de água doce varreu boa parte da cidade.

Proponho as seguintes reflexões:

Você acha que estamos preparados para enfrentar desastres naturais, quem sabe mesmo uma nova era de desastres decorrentes do aquecimento global?

Você se vê enfrentando um grande desastre natural, como este que ocorreu no Haiti em 2010 ou no Japão em 2011?

Você se vê, de uma hora para a outra, perdendo tudo o que tem?

Você se vê, de uma hora para a outra, dependendo da solidariedade alheia?

O que é que você, eu e nós todos temos a ver com isso?

No nosso mundo, todos estamos ligados, numa teia bem elaborada e intricada, onde as relações de causa e efeito são inexoráveis. Há algo denominado “Efeito Borboleta (The Butterfly Effect)”:

É um termo que se refere às condições iniciais dentro da teoria do caos. Segundo a cultura popular, (…), “o bater de asas de uma simples borboleta poderia influenciar o curso natural das coisas e, assim, talvez, provocar um tufão do outro lado do mundo”. Certamente que é uma metáfora.

Não ouso afirmar categoricamente que a nossa opção pelo consumo quase sem freios, que a exploração desmedida dos recursos naturais do planeta em busca do crescimento econômico “sustentável” e que a destruição das florestas e hábitat em todo o planeta são a única causa das mudanças climáticas que ora testemunhamos. Muito menos acharia razoável afirmar que tais comportamentos sejam a causa dos terremotos e tsunamis que atingiram o Japão em 2011, causando tantas mortes e destruição. Mas dizem que este desastre mudou o eixo da Terra e, quem sabe, pode mudar nossas vidas. Não importam tanto as causas, mas o problema também nos diz respeito.

Por outro lado, ouso acreditar que tudo e todos estão interligados neste mundo. Sabe aquela idéia do filme Avatar? Pois bem, quem sabe nosso planeta não seja muito mais que um substrato sólido de matéria inerte, apenas um suporte conveniente para a nossa fugaz existência? E quem sabe o nosso Planeta Terra estaria tentando demonstrar algo para nós?

Opino que é melhor que estejamos preparados. Hoje, não basta ser sustentável, o que para muitos já seria um sonho, como é o meu caso.

Enquanto sociedade nos preparemos para promover a paz – para não enfrentarmos os efeitos da guerra e da anomia;

Trabalhemos para erradicar a fome – para que os famintos não destruam o meio ambiente em busca de sustento ou riquezas;

Promovamos políticas públicas para que não exista uma só pessoa sem teto ou sem terra – para que os desabrigados e desprovidos de meios de sustento não desmatem, nem invadam e construam em encostas, ou nos leitos de rios, ou nos mangues – pois ou ficaremos sem as árvores e sem as nascentes e a sua preciosa água potável, e as enchentes e avalanches de lama trarão conseqüências irreparáveis para cada um de nós.

Josué de Castro dizia: “Metade da humanidade não dorme porque tem fome e a outra metade não dorme porque tem medo dos que têm fome”. Pois acredito que tudo e todos estão interligados neste mundo: não viveremos seguros, nem em paz, nem saciados, nem tranqüilos, nem saudáveis, enquanto destruirmos o planeta, enquanto houver injustiçados, enquanto houver famintos, enquanto houver doentes, enquanto houver desabrigados, em qualquer lugar.

Se ainda não o fizemos, mudemos a nossa atitude em relação ao planeta e também em relação ao próximo.

Adotemos um novo comportamento enquanto consumidores, pensando na preservação do nosso meio ambiente;

Tomemos iniciativas para prevenção e enfrentamento dos desastres naturais, bem como de ajuda para todos aqueles que estão sofrendo os devastadores efeitos dos mesmos, pois gostaríamos que assim fosse feito por nós;

Pois estamos vivendo uma nova era, em que a consciência ambiental, a responsabilidade social, a empatia e a solidariedade serão fundamentais para a nossa própria sobrevivência.