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O novo Código Florestal e os desastres ambientais: o que há em comum entre a monocultura, a cana-de-açúcar, a criação de bovinos, a pobreza, políticos corruptos, a destruição da mata ciliar e as enchentes, enxurradas e inundações?

Publicado: 20/05/2011 em Cidadania, Ecologia, Meio Ambiente, Saúde, Sustentabilidade
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O caderno Ciência e Meio Ambiente do Jornal do Commercio, domingo, 08 de maio de 2001, folha 5, trouxe a seguinte matéria:

“Mata ciliar é solução para as inundações”.

Fiquei muito animado com a notícia! No momento, o novo Código Florestal é discutido no Congresso Nacional, promovendo a tentativa de reduzir as áreas de preservação de florestas em margens de rios (mata ciliar), por grupos cujos principais interesses são egoístas e que ignoram as necessidades e sofrimentos coletivos, além do imperativo da preservação ambiental.

Ao mesmo tempo, vemos se multiplicarem os desastres ambientais, a exemplo das enchentes, enxurradas, inundações e deslizamentos de terra, em 2010 e 2011, atingindo Pernambuco, Alagoas, Região Serrana do Rio de Janeiro e outras regiões do Brasil, como as regiões Sul, Centro-Oeste e Norte, com mortes e grande número de pessoas desalojadas e desabrigadas. Muitas dessas pessoas estão desabrigadas desde desastres ocorridos anteriormente ao último registrado. E, não bastasse a tragédia humanitária e as perdas de vidas, os brasileiros em geral, toda a nação, têm de arcar com o incalculável custo de recuperação e reconstrução daquilo que foi destruído. É bom lembrar que as populações mais pobres são aquelas que geralmente sofrem as principais conseqüências dos desastres, aqui e em todo o mundo.

Os artífices do novo Código Florestal argumentam que não há “provas científicas” que justifiquem a manutenção da mata ciliar!

Me poupem, ilustres parlamentares!

Quando se trata de segurança e sobrevivência da humanidade, prevalece o princípio da segurança e torna-se desnecessário provar o óbvio, o ululante. Na dúvida, preserve!

Mas, ainda assim, o cientista ambiental André Alcântara, sob a orientação do pesquisador Ricardo Braga, com apoio da Sociedade Nordestina de Ecologia e com financiamento pelo Fundo Nacional do Meio Ambiente, provou para os céticos, inconseqüentes e egoístas que a mata ciliar precisa ser protegida:

“a vazão da água é bem maior em áreas cultivadas que em áreas florestadas”.

Mas o que isso significa? A tabela a seguir ilustra os resultados e alcance do estudo:

Local

Vazão

(l/s por km2)

Oxigênio dissolvido na água

Necessidade de tratamento da água para consumo

Estação 01 – Próximo da nascente: rio margeado por floresta Atlântica

24,7

Acima do necessário para a água ser considerada própria para consumo Necessita apenas cloração
Estação 02 – Rio cercado por agricultura de subsistência e mata em regeneração

62,6

Próximo do mínimo necessário para a água ser considerada própria para consumo Necessita de tratamento completo
Estação 03 – Margens ocupadas por pasto e canavial

177,6

Muito abaixo do mínimo necessário para a água ser considerada própria para consumo Necessita de tratamento completo

Ou seja:

“em áreas cultivadas, a vazão do rio é sete vezes maior que nas áreas florestadas”, pois onde havia pasto e cana a vazão chegou a 177,6 litros.

Traduzindo, em termos práticos, acrescento aqui uma pequena contribuição ao debate:

Quais são os municípios pernambucanos (e provavelmente também alagoanos) mais atingidos pelas enchentes em 2010 e 2011? Quais as suas principais formas de exploração e uso do solo, conforme dados de 2010?

Município

Situação de desastre ambiental em 2010 e 2011

Densidade demográfica (hab/km2)

Taxa de urbanização (%)

Renda per capita

Taxa de analfa-betismo

– 15 anos e mais (%)

Principal cultura -agrícola e pecuária

(maior valor da produção em R$ e maior efetivo dos rebanhos, respectivamente)

Água Preta Calamidade Pública 60,84 56,61 65,5 39,60 Cana-de-açúcar e bovinos
Barreiros Calamidade Pública 174,49 83,42 93,22 30,76 Cana-de-açúcar e bovinos
Catende Calamidade Pública 182,82 76,33 104,19 33,94 Cana-de-açúcar e bovinos
Cortês Calamidade Pública 122,94 63,45 74,18 36,09 Cana-de-açúcar e bovinos
Jaqueira Calamidade Pública 129,22 61,57 65,03 39,94 Cana-de-açúcar e bovinos
Maraial Calamidade Pública 62,46 70,03 60,57 42,77 Cana-de-açúcar e bovinos
Palmares Calamidade Pública 176,71 78,76 134,47 27,78 Cana-de-açúcar e bovinos
Primavera Calamidade Pública 122,24 63,84 84,88 32,67 Cana-de-açúcar e bovinos
Xexéu Calamidade Pública 127,18 65,04 64,99 43,94 Cana-de-açúcar e bovinos
Quer mais? Veja a tabela completa, ao final, incluindo municípios em situação de emergência.Dados: http://www.bde.pe.gov.br/ArquivosPerfilMunicipal

São justamente aqueles municípios que têm os tipos de agricultura e pecuária apontados como tendo maior vazão em decorrência das chuvas. Não bastasse a pesquisa sobre vazão menor em áreas com preservação de matas ciliares, realizada em Pernambuco, acrescentam-se os dados acima, que são óbvios, ululantes!

Erosão do solo pelas águas em plantio de cana-de-açúcar

Erosão do solo pelas águas em plantio de cana-de-açúcar

O que possuem em comum os municípios de Pernambuco, em estado de calamidade pública, em decorrência das enchentes em 2010 e 2011? (pode incluir também aqueles em situação de emergência)

a)      Cana-de-açúcar como principal cultura agrícola;

b)      Criação de bovinos em pastagens como principal atividade agropecuária;

c)       Geralmente possuem elevadas densidades populacionais (é provável que este seja um dos principais componentes dos graves desastres ambientais!);

d)      Geralmente possuem elevado percentual de urbanização;

e)      Geralmente possuem baixa renda “per capita”;

f)       Geralmente possuem elevados percentuais de analfabetismo entre jovens e adultos, ao qual podemos somar o analfabetismo funcional.

Todos esses fatores estão relacionados entre si e também com baixos IDH (índice de desenvolvimento humano), péssimos indicadores de saúde, elevado desemprego, grande violência e outras mazelas.

Neste contexto, é difícil esperar o exercício efetivo da cidadania. Ainda mais, esperar que essas pessoas pensem e lutem pelo meio ambiente, se não percebem que as suas condições de vida estão associadas a todos esses fatores. Suas crianças e jovens mal podem freqüentar as escolas, com estradas e pontes esburacadas, enlameadas ou interrompidas pelas sucessivas enchentes, além do ainda existente trabalho infantil.

É o alto preço cobrado devido à opção histórica pela monocultura, ocupação e exploração desordenada do solo e abandono educacional das pessoas!

Certamente que a cultura da cana-de-açúcar e a pecuária têm sua importâncias para as pessoas. E certamente que há municípios com cana-de-açúcar e bovinos como principais atividades agropecuárias e que não estão em estado de calamidade pública, e vice-versa. Mas as realidades de Pernambuco e Alagoas são sintomáticas.

Estudos “científicos” de associação de causa e efeito entre múltiplos fatores, tais como fatores ambientais, sociais, econômicos e culturais não são fáceis, tampouco estarão isentos de críticas quanto aos seus alcances e validades. Porém, deixo esta proposta para os pesquisadores em geral, para que realizem vários estudos científicos envolvendo essas temáticas, com grandes promessas de recompensa para a humanidade.

Finalmente, do que foi exposto até então, algumas soluções emergem como óbvias:

– É necessário preservar, recuperar e ampliar a mata ciliar e as florestas em geral. Precisamos de um NOVO Código Florestal que preserve e aumente as florestas, não precisamos de um pernicioso código florestal que proclame a sua dizimação e exploração irracional. Mas, acima de tudo, precisamos desenvolver uma consciência coletiva de respeito ao meio ambiente e à coletividade, que vá além do dever ser das leis, que faça acontecer. Afinal, de “boas” leis o Brasil está cheio. Faltam os bons costumes;

– É necessário educar as pessoas, libertando-as dos grilhões que as prendem à exploração política e à miséria. Educação e cidadania têm de sair dos discursos vazios e mentirosos de candidatos irresponsáveis e despreparados, tornando-se resultados concretos por intermédio de administradores públicos profissionais, competentes e comprometidos com a coletividade;

– É necessário diversificar as culturas agrícolas e pecuárias, explorando-as de forma respeitosa à preservação do meio ambiente e recursos naturais, assim como adequada às necessidades das pessoas, de suas famílias e de suas coletividades;

– É necessário fixar os homens e suas famílias no campo, provendo terra e condições adequadas para a produção agropecuária sustentável. Enquanto consumidores, deveríamos assumir compromisso de compra junto aos agricultores familiares, que teriam a certeza de continuidade de suas atividades, permanecendo no campo. Enquanto governo, aplica-se o mesmo. Aliás, isto já é feito pelo Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA), que em Pernambuco, atualmente, adquire da agricultura familiar e distribui com as famílias atingidas pelos desastres;

– É necessário reduzir a urbanização e os grandes adensamentos populacionais. Devemos falar em interiorização das populações, mas também creio que devemos perder o medo de falar em controle de natalidade e sobre o controle do crescimento populacional!

Pois aí estão as causas dos desastres naturais, da pobreza e dos principais flagelos da humanidade, incluindo a fome, a falta de abrigo salubre, as doenças, a violência e a miséria. Não é assim que queremos viver a humanidade!

(mais…)

A insustentável lerdeza do trânsito metropolitano de Recife e capitais: perdemos bens preciosos como tempo em família, lazer, exercícios e saúde, em troca do uso diário do automóvel, trânsito caótico, atropelamentos e acidentes envolvendo caminhões, ônibus, carros, motocicletas, bicicletas e pedestres, além de poluição, stress e doenças do coração…

Publicado: 08/05/2011 em Cidadania, Meio Ambiente, Saúde, Sustentabilidade
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É mole ou quer mais?

Muita gente pensa que abdicar do (suposto) conforto do automóvel e encantos do consumo é o mesmo que voltar à barbárie. Será?

Mas o que caracteriza a barbárie?

– Seriam os milhares de pedestres e ciclistas atropelados, mortos ou lesados por carros e motos que, sendo maiores e mais fortes, se consideram os donos das ruas?
– Seriam as mortes e lesões corporais em milhares de motociclistas, atropelados por motoristas ensandecidos?
– Seriam as agressões recíprocas entre condutores estressados, que perderam o bom senso, a cortesia, a solidariedade e os traços de conduta que caracterizam os povos civilizados, partindo para a competição destruidora e agressões verbais e físicas, por vezes cometendo homicídios?
– Seria o barulho ensurdecedor de buzinas acionadas por motoristas, que não suportam mais ficarem presos no interior dos seus carros, em cruzamentos trancados por veículos que tentam atravessar ao mesmo tempo as vias, em todos os sentidos?
– Seriam os assaltos, por vezes latrocínios, ocorridos em arrastões que ocorrem quando o trânsito está parado?
– Seriam as toneladas diárias de emissão de carbono que saem dos escapamentos de motos, carros, ônibus e caminhões, provocando o aquecimento global, que provoca chuvas, enchentes, enxurradas e furacões, tirando vidas e deixando as vidas restantes um inferno?

O próprio direito de ir e vir, ou a liberdade de escolha de como podemos nos deslocar nas cidades, estão seriamente lesados:

a) Não podemos nos deslocar de ônibus, sem perder um tempo enorme dos nossos dias, pois nossos transportes coletivos estão longe de atenderem às necessidades da população. Sem falar nos riscos constantes de assaltos em certas linhas e horários;
b) Não podemos nos deslocar de moto, sem participar das estatísticas de lesões corporais ou de mortalidade, com ou sem seqüelas, dada a prepotência, arrogância e insanidade de inúmeros condutores de automóveis, ônibus e caminhões;
c) Não podemos nos deslocar de bicicleta, pelos mesmos motivos que afetam os motoqueiros, sendo que também os motoqueiros atropelam bicicletas;
d) Não podemos nos deslocar caminhando, sem correr um alto risco de atropelamento, por qualquer que seja o tipo de veículo, além do perigo de assaltos.

Pois bem: não estamos falando de um risco inerente à vida normal, ao qual todos estamos sujeitos no dia-a-dia. Nossos riscos, no Brasil de hoje, são muito maiores do que os riscos equivalentes em países verdadeiramente civilizados. Basta pesquisar na web nossas taxas de morbidade e mortalidade por causas externas.

Quantas vidas, quanto conforto, quanto bem-estar, quanta saúde, quantos bilhões ou trilhões de reais estamos perdendo com toda essa situação? Será que ninguém percebe que, isso sim, é barbárie?

Francamente, a vida que hoje vejo em Recife, que não deve ser diferente do Rio e São Paulo (cidades onde já morei), nem de outras grandes capitais do Brasil, quem sabe do mundo afora, não é civilização, mais parece barbárie. E muitas vezes não adianta se mudar: há cerca de 10 a 15 anos muitos moradores da Região Sudeste se dirigiram para as águas mornas do litoral nordestino, com ânimo de fixar residência, para fugir do caos urbano. Dependendo da cidade para onde foram, estão revivendo hoje as suas vidas antigas, ou não estão longe de revivê-las.

Com doses diárias e pequenas, fomos nos acostumando com isso: já cheguei a gastar 7 minutos de casa para o trabalho, de carro, em meses de férias escolares, percorrendo um trecho de 3,5 quilômetros. Em média, gastava 10 a 15 minutos, normalmente. Depois, as coisas começaram a mudar: 20 minutos em média, pois cada vez existem mais semáforos e mais veículos. Não tardou, o tempo mais comum passou a ser de 25 ou 30 minutos. Hoje, não raro, gasto 40, 50 ou 60 minutos para fazer o mesmo percurso, de carro. Isso é conforto e comodidade? Na verdade, virou insanidade.

Precisamos fazer algo e não simplesmente esperar que as nossas autoridades “iluminadas” tomem medidas para debelar as causas dos problemas e não apenas os seus efeitos.

O que podemos fazer?

Eu, você e nós:

1) Para quem tem capacidade física suficiente e mora não muito longe do trabalho ou da escola, que tal ir a pé? Gasto 35 minutos para percorrer 3,5 quilômetros até o trabalho, caminhando normalmente. Dependendo do dia, chego mais rápido do que de carro. Chego suado, é verdade, mas estamos nos trópicos. Nada que um kit jeans, camisa pólo, tênis, meias confortáveis e toalha não resolvam. Nos tempos de chuva, precisamos de um pouco mais: sapatos ou botas adequados, guarda-chuvas, capas ou jaquetas impermeáveis;
2) Que tal caminhar até a escola, sempre que possível, ou avaliar a viabilidade de usar transporte escolar para os nossos filhos?
3) Experimentar o transporte solidário: não raro, abrindo mão de um pouco de comodidade, podemos conciliar horários e trajetos de veículo com familiares, amigos e colegas de trabalho;
4) Exigir o direito de compartilhar o prejuízo do tempo perdido no trânsito com os empregadores. O problema é de todos e todos são responsáveis pelas soluções. Além disso, boa parte deste problema é causado pela omissão do Poder Público. Não é justo que o ônus recaia inteiramente sobre o trabalhador que, para chegar pontualmente ao trabalho, precisa sair cada vez mais cedo de casa. E, ainda, chega cada vez mais tarde em casa, privando-se e aos familiares do tempo para suas necessidades diárias, incluindo convívio familiar, lazer e repouso (É um tema que merece discussão ampliada);

Os empregadores:

1) Disponibilizar bicicletário para os seus trabalhadores;
2) Disponibilizar locais para banho e guarda-volumes, além de bicicletários, para viabilizar o hábito de deslocamento a pé ou de bicicleta;
3) Promover políticas de dias de trabalho em casa, sempre que isso for viável ao tipo de atividade. Estar presente no trabalho nem sempre implica em trabalho, produção e resultado;
4) Reduzir e flexibilizar a jornada de trabalho, inclusive em horários corridos, aumentando as opções de escolha de horários de trabalho, o que permite uma melhor distribuição das pessoas em deslocamento, no decorrer do dia.

Os eleitores:

1) Votar em representantes políticos comprometidos com soluções sustentáveis e responsáveis com o bem-estar, saúde das pessoas e preservação do meio ambiente;
2) Não votar em políticos que já tiveram a sua chance e nada fizeram para resolver esses problemas. Ao contrário, se autopromoveram e se locupletaram a partir da função pública;
3) Participar ativamente da vida política. Quando dizemos que não gostamos de política e nos omitimos, delegamos aos incompetentes e aproveitadores as decisões que mudam para pior as nossas vidas: dá no que estamos vendo aí!

4) Não havendo outra solução, por que não iniciarmos ações populares, conforme previsto em nossa Constituição Federal?

O Poder Público:

Deixar de fingir que o problema não é dele e adotar todas as medidas já conhecidas para mitigar e/ou solucionar os problemas direta e indiretamente ligados ao trânsito, como todos aqueles citados no início do texto. Não podem ser apenas medidas pontuais. São problemas que requerem soluções holísticas e efetivas. Exigem visão de longo prazo, bons diagnósticos, ótimo planejamento,  e trabalho cooperativo e coordenado. Exigem a participação de diversas pessoas, autoridades, entidades e esferas governamentais: Ministério Público, Poder Judiciário, Poder Legislativo e Poder Executivo, incluindo secretarias ou ministérios, órgãos de trânsito, planejamento, administração, obras e infra-estrutura, meio ambiente, saúde, ação social, educação e comunicação, bem como do Terceiro Setor, Escolas Públicas e Privadas, Sindicatos, dentre outras, além de trabalho árduo e incessante de todos. Sem esquecer do exercício da cidadania.

Não podemos deixar de enfatizar a necessidade de priorizar os transportes coletivos, disponibilizar vias exclusivas para esses, proporcionar mais ciclovias e muito mais segurança para ciclistas e pedestres, além de cobrar mais pela circulação do automóvel usado individualmente em dias e horários de grande fluxo, bem como promover mais medidas educativas e corretivas para reduzir a violência no trânsito.

Tudo isso tende a diminuir o número de veículos em circulação, reduz a perda de tempo em congestionamentos, minimiza o stress, contribui para melhorar a saúde coletiva e é bom para o meio ambiente.

Não pretendo ignorar outros direitos e necessidades, nem prever todas as soluções possíveis, tampouco suas eficácias. Portanto, conto com a sua colaboração cidadã, para aumentar e melhorar esta lista e discussão.

Mas temos uma outra alternativa: fingir que o problema também não é nosso e esperar para ver como estaremos vivendo daqui a 5, 10 ou 15 anos. Para depois fazermos o balanço entre perdas e ganhos. É pagar para ver.

E aí, você topa ou não topa se engajar neste movimento?

Veja mais sobre o tema em:

Caminhar na ida e volta do trabalho
Trânsito sem Controle – JC Especial

As novas gerações assistem online uma sucessão de desastres naturais ou de natureza mista (aqueles cujas causas contribuintes também incluem a atividade humana) que muitos de nós não testemunhamos no passado. Aparentemente não apenas devido às novas tecnologias que permitem a transmissão de cenas assustadoras em tempo real, onde quer que estejam acontecendo no planeta, mas possivelmente porque tais mega-desastres parecem ter sido registrados com maior freqüência nos anos recentes.

Deve haver um montão de teorias e discussões sobre o assunto, mas o propósito do presente escrito é mais o de discutir as possíveis conseqüências gerais destes desastres e alertar que devemos agir e nos preparar para enfrentar o pior, ainda que ele não nos ocorra.

Miremos o exemplo japonês e perguntemos: qual seria o impacto de um terremoto seguido de tsunami, como ocorreu agora em 11/03/2011 no Japão, ou de desastre similar, em nosso Brasil ou na América Latina?

Há indicadores que demonstram que se um desastre natural pode causar efeitos sérios em um país, seus efeitos equivalentes poderiam ser devastadores em um outro, pois diferentes localidades possuem diferentes vulnerabilidades e capacidades de lidar com as catástrofes, incluindo a prevenção, o seu enfrentamento e a recuperação subseqüente.

O BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento considera que o “Risco de desastres naturais continua alto na América Latina e Caribe” e adota indicadores de riscos de desastres naturais para medir tal risco: “(…) se o Peru fosse atingido hoje por um terremoto similar ao que atingiu o Chile mais no início deste ano, poderia sofrer perdas econômicas de até US$ 15,8 bilhões. Um evento semelhante poderia causar perdas de até US$ 5,2 bilhões no México, US$ 3,8 bilhões na Colômbia e US$ 3,5 bilhões no Equador”.

A mensuração dos fenômenos é o primeiro passo para compreendê-los e para lidar melhor com eles. Uma das principais lições que podemos tirar dos citados índices, além do alerta para a necessidade de prevenção e preparação para desastres, é de que tais desastres podem provocar prejuízos em perdas humanas, sociais e econômicas que muitos países não são capazes de enfrentar. Logo, a menos que contem com generosa e ampla ajuda externa, nunca poderão se recuperar. E como vivemos na era global, os efeitos acabam sentidos por todos, de uma maneira ou de outra, mais cedo ou mais tarde.

Um destes indicadores é o Índice de Déficit por Desastres (IDD), que “compara as perdas econômicas potenciais que um país pode sofrer e a capacidade financeira do governo para lidar com esses custos“. Há países da América Latina que possuem este índice com valor superior a um, indicando que as perdas potenciais são maiores que as respectivas capacidades de recuperação.

Lembramos do caso do terremoto do Haiti em 2010, país cuja miséria se agravou sobremaneira após o desastre e parece continuar na mesma situação, especialmente devido a haver pouco interesse econômico em transferir rios de dinheiro para recuperação daquele pobre território.

Há também o Índice de Desastres Locais (IDL), que “avalia os riscos sociais e ambientais derivados de desastres recorrentes de pequena escala, analisando o número de mortes, o número de pessoas afetadas e os danos a casas e plantações“. Estes chamam pouca atenção, especialmente da mídia, mas tendem a ocorrer repetidamente e os seus efeitos cumulativos dificultam o desenvolvimento econômico e social local e podem contribuir para criar a pobreza endêmica. Creio que podemos citar como exemplo o que ocorre nas regiões semi-áridas do Nordeste do Brasil, devido às secas endêmicas.

Um terceiro índice usado pelo BID é O Índice de Vulnerabilidade Prevalente (IVP), que “mede as condições de vulnerabilidade predominantes de um país avaliando a exposição da atividade humana e econômica em áreas sujeitas a desastres, bem como a capacidade de absorver os impactos de desastres. Os três indicadores que formam este índice composto consideram fatores como crescimento demográfico, densidade populacional, níveis de pobreza e desemprego, degradação do solo causada por ação humana, proporção dos gêneros, gastos sociais e seguros de infra-estrutura e moradia”.

Partindo do conceito do IVP, não é difícil entender a grande vulnerabilidade dos países da América Latina, incluindo regiões do Brasil, onde coexistem elevadas densidades populacionais, concentração maciça das populações em grandes centros urbanos que possuem precária infra-estrutura, pobreza, desemprego e ocupação irregular de morros ou áreas sujeitas a inundação, esta última uma busca desesperada por solução para moradia, proximidade do emprego e expectativa de vida digna. É aí que se constrói o cenário dos mega-desastres e os mais desfavorecidos são também os mais vulneráveis, quase sempre.

Finalmente, vejamos o que o BID registra sobre um quarto índice: “O Índice de Gestão de Riscos (IGR) combina várias medidas para avaliar a capacidade de um país identificar e reduzir os riscos, responder a catástrofes e recuperar-se delas e oferecer proteção financeira e transferência de risco. Todos os países analisados pelo índice apresentam níveis insatisfatórios de gestão de riscos de desastres”. Registro que o Brasil não foi avaliado.

A esta altura você já deve estar perguntando: e daí? O que é que eu tenho a ver com isto?

Eu diria que tudo, pois embora pouco provável que ocorram no Brasil terremotos ou tsunamis como os da Indonésia, Haiti, Chile e Japão, as enchentes das regiões Nordeste, Sudeste, Sul, Norte ou Centro-Oeste podem afetar qualquer um de nós. E também estamos sujeitos a outros tipos de catástrofes. Para quem procura exercer a empatia, é possível imaginar o sofrimento e desgraça que se abatem sobre as pessoas vítimas das emergências e calamidades públicas. Para quem tem maior dificuldade em sentir a desgraça alheia, há outros argumentos.

Além da solidariedade requerida de todos nós cidadãos para com os povos atingidos (num futuro post falarei sobre a importância do voluntariado nas calamidades públicas), precisamos nos preparar para enfrentar os desastres naturais. Como vimos, quanto mais bem preparados estivermos, menores serão os prejuízos, mais rápida a recuperação e maior a chance de rápido retorno à normalidade. O outro caminho seria pagar para ver, correndo o risco de nunca mais nos recuperarmos, ou coisa muito pior.

Por vezes pensamos que estamos totalmente seguros e que nossas vidas jamais sairão dos trilhos em que se encontram. Torço que seja assim para cada um de nós.

Mas nem sempre é assim. Veja abaixo a “vida fora dos trilhos e de pernas para o ar” em Branquinha, Alagoas, em decorrência das enchentes em junho de 2010: um tsunami de água doce varreu boa parte da cidade.

Proponho as seguintes reflexões:

Você acha que estamos preparados para enfrentar desastres naturais, quem sabe mesmo uma nova era de desastres decorrentes do aquecimento global?

Você se vê enfrentando um grande desastre natural, como este que ocorreu no Haiti em 2010 ou no Japão em 2011?

Você se vê, de uma hora para a outra, perdendo tudo o que tem?

Você se vê, de uma hora para a outra, dependendo da solidariedade alheia?

O que é que você, eu e nós todos temos a ver com isso?

No nosso mundo, todos estamos ligados, numa teia bem elaborada e intricada, onde as relações de causa e efeito são inexoráveis. Há algo denominado “Efeito Borboleta (The Butterfly Effect)”:

É um termo que se refere às condições iniciais dentro da teoria do caos. Segundo a cultura popular, (…), “o bater de asas de uma simples borboleta poderia influenciar o curso natural das coisas e, assim, talvez, provocar um tufão do outro lado do mundo”. Certamente que é uma metáfora.

Não ouso afirmar categoricamente que a nossa opção pelo consumo quase sem freios, que a exploração desmedida dos recursos naturais do planeta em busca do crescimento econômico “sustentável” e que a destruição das florestas e hábitat em todo o planeta são a única causa das mudanças climáticas que ora testemunhamos. Muito menos acharia razoável afirmar que tais comportamentos sejam a causa dos terremotos e tsunamis que atingiram o Japão em 2011, causando tantas mortes e destruição. Mas dizem que este desastre mudou o eixo da Terra e, quem sabe, pode mudar nossas vidas. Não importam tanto as causas, mas o problema também nos diz respeito.

Por outro lado, ouso acreditar que tudo e todos estão interligados neste mundo. Sabe aquela idéia do filme Avatar? Pois bem, quem sabe nosso planeta não seja muito mais que um substrato sólido de matéria inerte, apenas um suporte conveniente para a nossa fugaz existência? E quem sabe o nosso Planeta Terra estaria tentando demonstrar algo para nós?

Opino que é melhor que estejamos preparados. Hoje, não basta ser sustentável, o que para muitos já seria um sonho, como é o meu caso.

Enquanto sociedade nos preparemos para promover a paz – para não enfrentarmos os efeitos da guerra e da anomia;

Trabalhemos para erradicar a fome – para que os famintos não destruam o meio ambiente em busca de sustento ou riquezas;

Promovamos políticas públicas para que não exista uma só pessoa sem teto ou sem terra – para que os desabrigados e desprovidos de meios de sustento não desmatem, nem invadam e construam em encostas, ou nos leitos de rios, ou nos mangues – pois ou ficaremos sem as árvores e sem as nascentes e a sua preciosa água potável, e as enchentes e avalanches de lama trarão conseqüências irreparáveis para cada um de nós.

Josué de Castro dizia: “Metade da humanidade não dorme porque tem fome e a outra metade não dorme porque tem medo dos que têm fome”. Pois acredito que tudo e todos estão interligados neste mundo: não viveremos seguros, nem em paz, nem saciados, nem tranqüilos, nem saudáveis, enquanto destruirmos o planeta, enquanto houver injustiçados, enquanto houver famintos, enquanto houver doentes, enquanto houver desabrigados, em qualquer lugar.

Se ainda não o fizemos, mudemos a nossa atitude em relação ao planeta e também em relação ao próximo.

Adotemos um novo comportamento enquanto consumidores, pensando na preservação do nosso meio ambiente;

Tomemos iniciativas para prevenção e enfrentamento dos desastres naturais, bem como de ajuda para todos aqueles que estão sofrendo os devastadores efeitos dos mesmos, pois gostaríamos que assim fosse feito por nós;

Pois estamos vivendo uma nova era, em que a consciência ambiental, a responsabilidade social, a empatia e a solidariedade serão fundamentais para a nossa própria sobrevivência.



Edição Especial sobre Sustentabilidade da Revista Veja

Capa da edição especial Sustentabilidade da revista Veja

A edição especial sobre sustentabilidade da Revista Veja, de dezembro de 2010, traz uma matéria que começa com a seguinte pergunta:

O Brasil pode crescer em ritmo chinês sem agredir o ambiente?

E a resposta, como poderiam esperar os mais céticos com a revista Veja, é:

SIM!

Vejamos os argumentos da Veja (e depois, uma oposição aos mesmos):

1) Agronegócio: o Brasil é campeão em produtividade e exportação. Área plantada e produção apresentam crescimento histórico. Ainda há cerca de 10% de terras ociosas para pecuária. No ritmo de crescimento do agronegócio, ou aumenta a produtividade ou haverá invasão da Floresta Amazônica.

O país dispõe de tecnologia para tal, acontece que é mais barato desmatar.

2) Energia: cerca de 74% da nossa energia é produzida por hidrelétricas. Nos próximos 1o anos a demanda deve crescer mais de 50%. Deve aumentar a participação dos combustíveis fósseis na matriz energética.

Nos próximos seis anos, seriam necessários investimentos de R$2 bilhões de reais, parte disto deveria ser investido em energia eólica. Do contrário, será necessário maior uso de energia térmica e nuclear.

3) Amazônia: estaria próxima do seu limite. Um aumento de 2% no desmatamento implicaria em sua transformação em savana, um ponto sem retorno. Um desastre ambiental, péssimo para a agricultura e produção de energia (faltou dizer que será péssimo para as pessoas e seres vivos em geral).

Não há qualquer registro de país que tenha sido capaz de conciliar preservação ambiental e expansão agrícola.

A solução seria adotar o novo Código Florestal, “mais realista que o anterior”. Preconiza as práticas de indenização a proprietários de terras para preservação da floresta, como na Costa Rica.

4) Saneamento: menos de 60% dos domicílios brasileiros têm saneamento. Mais de 8 bilhões de litros de esgoto são despejados nas nossas fontes de água. Ressalta que a poluição cresce com o aumento da industrialização e consumo. Menciona a China, com 50% de rios insalubres e possuidora de 16 cidades dentre as 20 mais poluídas do mundo.

Seria necessário investir 55 bilhões de reais por ano (isto mesmo! R$55bi/ano) nos próximos 10 anos.

5) Transportes: as rodovias e o diesel respondem por 2/3 dos transportes de carga. Nas cidades o modelo de transporte é o ônibus e automóvel particular (também combustíveis fósseis). Com maior produção, haverá mais transporte. Em péssimas estradas. Nas cidades sem metrô o trânsito tende a piorar.

Para gargalos da infraestrutura viária seriam necessários R$ 22 bilhões, especialmente para ferrovias em áreas produtoras.

6) Portos: o Brasil, um dos maiores exportadores de alimentos, tem infraestrutura portuária pífia e transporte 4x mais lento que portos similares. Isto gera grandes prejuízos e desperdício de alimentos. Ao ritmo de crescimento de exportações atual, seria necessário duplicar os portos em 8 anos.

A solução seria triplicar (isso mesmo, TRIPLICAR) os investimentos nesta infraestrutura.

7) Demografia: a fecundidade decresceu, e hoje é de 1,8 filhos por mulher (ao menos uma notícia alentadora). Crescimento econômico implica em aumento de emprego, renda e, portanto de consumo. Entretanto, para o ambiente, mais importante que o tamanho da população é o padrão de consumo (observe que o impacto ambiental das populações da América do Norte e Europa são significativamente maiores que as demais populações no mundo).

Seriam necessárias inovações na indústria e agropecuária para aumentar produtividade sem causar danos ambientais.

Uma leitura atenta dos argumentos, apresentados na própria matéria, deveria levar a uma conclusão oposta à resposta SIM. Não obstante serem plausíveis as hipóteses de soluções tecnológicas. Mas há muito mais que isso a considerar.

Sendo mais otimista e menos realista, o leitor concluiria por uma grande interrogação. Mas podemos “engrossar o caldo”, com alguns simples questionamentos:

1) Agronegócio e Amazônia:

– Uma sociedade apática vai cobrar as mudanças?

– O que faria os agricultores adotarem tecnologias mais caras, quando é mais barato desmatar? Novas leis? Legislação feita por nossos parlamentares corruptos, demagógicos e fisiológicos? O Congresso atual aprovaria o pagamento a proprietários de terras para preservarem florestas? Um valor hipoteticamente aprovado seria suficiente para competir com os lucros da atividade criminosa?

– Pouquíssimos fiscais seriam suficientes para zelar pelo cumprimento das leis em um território gigante? Ainda mais com a facilidade de corrupção fiscal, historicamente presente em nossas terras tupiniquins?

– E o orçamento para tudo isso? Lembremos que até a educação teve cortes orçamentários para 2011!

2) Energia, Saneamento, Transportes e Portos:

– De onde virão os bilhões e bilhões necessários para este magnífico Novo Milagre Econômico?

– Ainda que haja recursos – digamos que de Parcerias Público Privadas, como esperar tais decisões de investimento em infraestrutura produtiva, num país que optou pelos seguintes investimentos:

a) Copa do Mundo de 2014 (“investimentos” estimados em R$ 5 bi), só que estimativas realista são muito superiores);

b) Olimpíadas de 2016 (Rio se prepara para “investir” 25,9 Bi); e

c) Trem Bala? Trem Bala e Crescimento Sustentável?

E olhem que estamos comprometidos com tais investimentos voluptuários “até o pescoço” nos próximos anos. Em que medida estes investimentos ajudam em sustentabilidade ambiental ou em que se prestam à solução dos problemas na infraestrutura ferroviária, portuária, de transporte rodoviário e urbano, do saneamento, além da geração de energia limpa?

Charge de J.Bosco, Trem bala Rio - São Paulo

Charge de J.Bosco, Trem bala Rio - São Paulo, do link http://jboscocartuns.blogspot.com/

No caso do trem bala, estima-se:

– O gasto de R$ 33 bi com o trem bala seria suficiente para construir 300km de metrô, o que é cinco vezes a malha de São Paulo;

Este mesmo gasto seria suficiente para construir 11 mil km de ferrovias comuns (permitiria trocar grande parte do transporte em péssimas rodovias e queimando diesel por transporte em ferrovias novinhas, reduzindo, ainda, o grande desperdício de alimentos perdidos no transporte);

– Novamente, as previsões são muito otimistas. Outros países gastaram muito mais que o previsto no trem bala. E nossa topografia é desvantajosa em relação a estes, o que tende a aumentar ainda mais os gastos reais. Há quem acredite que o gasto com o trem bala vá dobrar. Isto significará maiores tarifas e/ou maiores incentivos fiscais, abrindo mão de mais arrecadação de impostos;

– Ainda, pode-se argumentar que este investimento é privado. Mas não esqueçamos que o Estado abdicará de anos de arrecadação de impostos, o que equivale a gastos. Sem falar que este serviço, com benefício fiscal, concorrerá com outros serviços de transporte, como ônibus e ponte aérea, com impacto negativo na arrecadação oriundas destas outras fontes;

– Investir em saneamento? Os fatos estão aí: milhões de pessoas sem saneamento, milhares de mortes, especialmente mortalidade infantil, por doenças ligadas à falta de saneamento. Qual foi a opção política? Copa, Olimpíadas e Trem Bala! O povo e a natureza podem esperar…

Além do mais, todos os anos milhões são gastos em saneamento, grande parte “enterrados” ou que escoaram pelos ralos da corrupção. E cadê a capacidade de realização e a efetividade dos gastos, nesta nossa cultura de desvios de recursos públicos, de ineficiência e de ausência de práticas de cidadania, na cobrança de adequada destinação dos recursos públicos?

3) Demografia e hábitos de consumo:

– Embora o crescimento das taxas de fecundidade estejam em declínio, eles ainda são positivos. Ou seja, nossa população ainda está crescendo. Quanto ao desmatamento decorrente da expansão das cidades onde vivemos, e do aumento do consumo, que tal apresentar projeções baseadas no comportamento recente, para saber se aumentará 2%, tornando a Amazônia uma Savana?;

– Nosso PIB está crescendo. Logo, estamos enriquecendo. Se seguirmos o mesmo caminho que os nossos irmãos ocidentais da America do Norte e Europa seguiram historicamente, e continuam seguindo, seremos cada vez mais insustentáveis.

– E nada indica que os debates sobre sustentabilidade e preservação ambiental vão conquistar o gosto da preferência popular. Basta ver os assuntos euforicamente disputados nas redes sociais!

Certamente ainda seriam pertinentes muitos outros argumentos, mas estes parecem bastar para ressalvar a leitura da matéria da Veja:

Os dados e argumentos apresentados são bons e verossímeis. Mas as conclusões… estas não são condizentes com a própria argumentação apresentada na matéria. Salvo se o leitor estiver movido por uma grande dose de otimismo e credulidade quanto ao bom comportamento da humanidade.

O que mais chama a atenção é a afirmação de que uma das chaves para a requerida sustentabilidade seriam:

“Inovação tecnológica só existe se há aumento do consumo, aumento da produção e da riqueza de um país.”

Segundo a matéria, seria um pensamento afim da teoria da curva ambiental de Kuznets (Prêmio Nobel de 1971). Em resumo: nas fases iniciais da industrialização ocorre um aumento da poluição e dos impactos ambientais, que depois se estabilizam e, por fim, decrescem, com o aumento do nível de renda e educação da população. Seria um padrão de “U” invertido.

A suposta adequação da teoria de Kuznets à idéia da sustentabilidade do crescimento chinês no Brasil (ou em qualquer outro país), em harmonia com a preservação ambiental, não se sustenta, devido a simples constatações, presentes na própria edição especial da Veja:

“A Europa detinha 7% das florestas do planeta e hoje conta com mísero 0,1%. Nos Estados Unidos, quase não há mais terras disponíveis para produzir alimentos.”

“Com as pegadas ecológicas da Oceania (5,4 gha), e dos Estados Unidos e Canadá (7,9 gha) precisaríamos parar em 2,5 bilhões e 1,7 bilhão de habitantes, respectivamente.”

(detalhe, hoje já temos 7 bihões de habitantes em nosso planeta, logo, estes países, que são os mais ricos e mais educados em todo o mundo, são os mais insustentáveis de todos! E quando os demais enriquecerem e forem educados, já não terão mais qualquer floresta ou ambiente natural.)

Ou seja, os focos do problema são dois, especialmente:

1) A quantidade de pessoas no planeta; e

2) O modelo de produção e consumo baseado no pressuposto do crescimento continuado e “laissez faire

(nos países ricos, é mais comum as pessoas ingerirem calorias além do necessário, para depois queimarem o excesso na academia ou pagando uma lipoaspiração. Ou consumirem quaisquer outras coisas desnecessárias. Já os pobres…).

A propósito, veja os links abaixo sobre um milionário australiano que ofereceu um prêmio de $1m para alguém que afronte o crescimento populacional global:

Bilionário oferece R$ 1,6 milhão para quem salvar mundo do crescimento

Dick Smith Population

Mas nem tudo está perdido. E espero que decidamos por um caminho que não leve ao nosso fim. De qualquer modo, a natureza deve sobreviver à espécie humana, embora não necessariamente como já foi um dia.

Talvez, depois de muito sofrimento de milhões de pessoas e de grandes catástrofes ambientais, cada vez mais inesperadas e surpreendentes, a população mundial – especialmente a que deveria ter mais discernimento – acorde e reveja os seus conceitos sobre o modelo de produção baseado em contínuo crescimento econômico, em consumo desenfreado, no desprezo pelas outras espécies de seres vivos e na exploração insaciável dos recursos naturais do nosso planeta.

São estas as conclusões que posso chegar com a leitura que faço do mundo. Pessimista? Creio que não, do contrário não estaria aqui discutindo o assunto, pois seria puro sadismo. Mas alguém poderia me mostrar uma leitura diferente?

De qualquer modo, façamos a nossa parte e tenhamos fé!

A matéria da Revista Veja é assinada por Gabriela Carelli. Os comentários são do autor do blog.

Sobre uma edição 2009 da Revista Veja, também sobre sustentabilidade, leia:

Discurso da Sustentabilidade

Hoje fiquei feliz ao receber uma edição especial da revista Veja, inteirinha sobre Sustentabilidade. Apenas comecei a ler.
Embora preocupantes algumas revelações sobre a (In)sustentabilidade do planeta Terra, dados os padrões de consumo atuais, penso que os 1,2 milhões de exemplares da revista, lidos por formadores de opinião que usualmente não estão em contato direto com a temática, poderão produzir um importante impacto positivo sobre os debates a respeito do tema.

Não que devamos adotar sem ressalvas as opiniões expressadas pois, à primeira vista, alguns pressupostos parecem um tanto otimistas, distantes da realidade.

Isto exigiria consciência e comportamentos hoje inexistentes, para a maioria das pessoas em todo o mundo, mesmo entre as pessoas com elevada escolaridade. Além do mais, seria necessário que outros não crescessem como nós (Veja o artigo: Crescimento sustentável? Não, obrigado.).
Além de decisões de investimento contrárias às práticas globais de indústria e comércio, quando via de regra se adota a solução mais econômica e não aquela que, embora mais cara, é melhor para o meio ambiente.

Algumas revelações do primeiro artigo, assinado por José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia da Escola Nacional de Ciências Estatísticas, Ence/IBGE:
1) a Terra tem 7 bilhões de habitantes em 2010, possui 13 bilhões de giga-hectares produtivos, sua população ostenta um consumo que iria requerer um planeta com 18 bilhões de gha, de modo a não comprometer o ambiente nem as necessidades das gerações futuras;
2) Ou seja, já extrapolamos a capacidade de regeneração do planeta!
3) No padrão de consumo europeu e norte-americano, o planeta Terra é ainda mais insustentável. Este é aproximadamente cinco vezes maior do que o consumo dos africanos, numa unidade que ele chama de “pegadas ecológicas” (Veja aqui o tamanho da sua Pegada Ecológica!);
4) Até 2050 a Terra terá até 10bi de habitantes e o PIB deve crescer 3,5% ao ano. Logo, o consumo aumentará.

Pergunta-se, então: O que será do Planeta?

Segundo a matéria da Revista Veja, para retornarmos à sustentabilidade do Planeta existente em 1976, teríamos de reduzir o consumo em 33%, nos próximos 20 anos.
Isso exigiria não só uma revolução tecnológica, para aumento de produção e produtividade, sem comprometer ainda mais recursos. Exigiria uma verdadeira revolução comportamental, no tocante ao uso dos recursos, interações com o ambiente e, principalmente, quanto aos hábitos de consumo.
Será que o povo topa?
Eu penso que a tecnologia pode até multiplicar a produção, sem aumentar a área explorada. O problema é convencer as pessoas a não se multiplicarem!
Se aqui no Brasil ainda temos cerca de 50% de analfabetismo funcional, imaginem em países mais pobres! Não é nada fácil conseguir tal revolução em um mundo como este. Penso que dias difíceis virão. Quanto antes arregaçarmos as mangas, melhores serão as nossas chances.
E que os temas preservação e sustentabilidade entrem definitivamente no debate global.
Edição Especial sobre Sustentabilidade da Revista Veja

Veja uma discussão detalhada sobre matéria da edição em:

O Crescimento econômico brasileiro em ritmo chinês é compatível com a preservação ambiental?

“O especial, que usará papel 100% certificado, traz uma novidade: será totalmente impresso em tinta à base de óleo vegetal. Trazendo em seu cardápio editorial temas como as empresas que ganham dinheiro trabalhando de forma sustentável, fontes de energia alternativas, artigos de líderes internacionais, pontos abordados na COP – Conferência das Nações Unidas, dentre outros. VEJA Sustentável terá distribuição gratuita para assinantes e venda em bancas, livrarias, revistarias e redes de supermercados.”

Nesta foto panorâmica que postei no Flickr, temos uma rara visão de dois arco-íris sobre o Parque da Jaqueira em Recife/PE, num dia de chuva e sol. Algumas gotas pingaram sobre a minha objetiva, mas foi por uma boa causa.

*Parece a bandeira de Pernambuco? Imortal na imagem e em nossas mentes, fugaz como o tempo.

Da minha Janela, arco-íris (From my Window, the rainbow)
(Clique na foto para conhecer minha galeria de fotos no Flickr)

É o verde lutando contra o concreto, sobrevivendo teimosamente. É ele quem possibilita tais fenômenos. No passado, ouvíamos mais trovões em Recife e Olinda, as chuvas eram mais regulares, a vida se multiplicava tremendamente com as chuvas, por todas as partes. A vida era mais saudável sob diversos aspectos, afirmação que não ignora os avanços decorrentes do progresso científico e tecnológico, nem o aumento da esperança de vida (veja abaixo o conceito de saúde).

Áreas verdes como estas são cada dia mais raras, e devemos lutar não só para preservá-las, mas sobretudo para ampliá-las. O concreto embrutece, o verde enriquece e faz nossas vidas valerem mais a pena.

Já morei no Rio de Janeiro e em São Paulo. E Recife está ficando (ou já ficou) com os mesmos problemas dessas grandes cidades: violência, estresse, um ambiente desfavorável à vida saudável. E saúde, como me ensinou um sanitarista, é “Viver Mais e Melhor”. Não basta “Viver Mais”. Tem que ser Melhor, também. E é difícil conseguir isso com todos os problemas e todas as preocupações que a cidade grande traz. Basta experimentar uma viagem por lugares naturais como praia ou campo, e ver como retornamos revigorados. Quanta diferença com a vida puramente urbana.

Cada vez nos distanciamos mais de nossas origens naturais. Passamos a considerar naturais os adensamentos populacionais patológicos e toleramos o ambiente feio, cheio de fios, de outdoors, de pedras, com poluição do ar e das águas, com poluição luminosa… Já não se vê nos céus das grandes cidades o que as pessoas de interiores mais distantes ainda vêem: galáxias, nebulosas, muitas vezes a olho nu. Poluição sonora… estresse, irritação… E não entendemos o motivo das pessoas se tornarem cada vez mais irritadas, frias, desconfiadas, intolerantes. É um ambiente inóspito, impróprio para a expressão de muitas das melhores qualidades dos seres humanos.

E a foto escolhida nos lembra que a cidade pode ser mais bonita, mais natural. Em Recife, felizmente, o atual prefeito decidiu reservar uma nova área que seria destinada à construção de um centro comercial para ser um parque natural, no caso, o Parque da Tamarineira, mais verde para o recifense!

Polêmicas à parte, relativas às possíveis vantagens de um centro de compras (sempre o consumo!), sobre mais renda, mais emprego, mais riqueza… Nenhum modelo de desenvolvimento que pressupõe a necessidade de crescimento continuado como condição para o bem-estar social e desenvolvimento humano é sustentável. Além de ser perverso e auto-destrutivo.

O nosso ambiente tem uma capacidade de suporte limitada (capacidade de suporte é um conceito bem conhecido da Biologia Populacional: é quanto o ambiente pode sustentar em quantitativo de certa população. Próximo e acima deste limite surgem ou se tornam mais frequentes certas patologias que afetam severamente as populações. Há doenças que só persistem com elevadas densidades populacionais. As consequências são doenças, custos impagáveis, mortes. Ninguém pense que cenas como a da peste na idade média não podem voltar a ocorrer. Basta uma guerra ou uma catástrofe natural. E isto ocorre sempre, mais dia, menos dia.

É típico dos países subdesenvolvidos concentrarem a maior parte de suas populações em grandes cidades. Por isso, na minha opinião, parabéns ao Prefeito João da Costa pela corajosa decisão de não seguir os interesses exclusivamente econômicos ou quaisquer outros, que não a saúde das pessoas e do ambiente.

Não é exagero a fábula do filme “Onde está Wall-E?”. Os seres humanos expulsos do próprio planeta por eles envenenado, vagando por séculos numa espaçonave, até que um dia a vida volta a ser possível naquele lugar. Começar tudo outra vez. Quem sabe seguindo outro modelo de civilização. O preço foi alto, embora já não mais lembrassem o que era a vida como fora concebida pela natureza, tão acostumados estavam com o exílio no espaço. Mal podiam sustentar seus corpos obesos com esqueletos atrofiados, dada a falta de atividade física. Nem sabiam mais o que era interação social, com outro ser humano de verdade.

Que nós reflitamos e dediquemos maior atenção a questões como estas. O motivo? Imagine o arco-íris e o parque cheio de árvores e pássaros que você pode ter em sua janela. E o cheiro do ar puro que você pode respirar. E toda a vida e convivência de qualidade que podem existir nestes espaços.

Não esqueçamos: “Saúde é viver Mais e MELHOR”.

*PS: um colega chamou a atenção que a foto tinha até um quê da bandeira de Pernambuco, o que eu não tinha notado.  Uma bandeira natural com um toque urbano.

Summary

In this panoramic view, a rare vision of two rainbows, one stronger than the other, at jaqueira park in Recife/PE, Brazil, in a rainy and sunny day.
It is the green fighting against the concrete, surviving willfully.
Green areas as these are rarer today, and we should fight not only to preserves them, but above all to enlarges them.
The concrete brutalizes, the green enriches and makes our lives worthwhile.