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O que consumir? Para que consumir? Quando consumir? Comprar de quem? Quem é essa empresa? Ela é responsável social e ambientalmente? Onde colocar o que vou comprar? Como utilizar o produto? E depois, como vou descartar? Vou doar para alguém, vou reciclar… ? Ufa!

Consumir não é tão simples como parece!

Assista ao vídeo:

Veja mais sobre consumo:

Consumo e consumidor

A História das Coisas

Consciente Coletivo

A sustentabilidade é incompatível com o supérfluo

Seria muito engraçado, não fosse pela revelação do enorme inconsciente coletivo ainda existente em nosso planeta:

Por incrível que pareça, a maioria dos brasileiros entrevistados num programa de televisão aprovou uma série de empreendimentos imobiliários “de alto luxo” que ocupariam cartões postais do nosso Brasil. Já faz algum tempo, mas é algo que merece ser lembrado, sempre.
Nas areias das praias de Boa Viagem em Recife, ou de Copacabana no Rio de Janeiro, ou de Pitangueiras no Guarujá, ou no meio da Lagoa da Conceição em Florianópolis, ou no Lago Paranoá em Brasília – Distrito Federal, grande parte das pessoas ignorou o prejuízo irreparável que o sonho de consumo imobiliário de uns poucos causaria ou causa ao direito e sonho de bem-estar de toda uma coletividade.

“Gosto de levar vantagem em tudo, certo?”: A velha “Lei de Gerson”, antiga propaganda para consumo de cigarros.
Na pegadinha educativa de iniciativa do Instituto Akatu, em parceria com o programa “Fantástico” da Rede Globo, a apresentadora diz: “uma chance de mudar de vida”, por intermédio de uma construtora “ousada”. Haja ousadia!

Para uma minoria, a vida até poderia mudar para melhor, no curto prazo. Para uma esmagadora maioria, seria mudar de vida para pior no curto e médio prazos. E para todos, incluindo os “felizes e orgulhosos” compradores dos prédios construídos nas areias de nossas praias e no meio de nossas lagoas, a vida certamente iria mudar para muito pior no longo prazo, inexoravelmente.
Felizmente ainda existem pessoas e instituições dispostas a cultivar o consciente coletivo, bem como existem os remédios constitucionais contra governos, autoridades e pessoas ou empresas dispostas a ignorarem os direitos coletivos e difusos.

Além disso, ainda que ocasionalmente possamos agir com pouco ou nenhum discernimento, a humanidade e cada pessoa, todos nós, somos capazes de recobrar e desenvolver a consciência, agindo com solidariedade, empatia e praticando ações humanitárias. A predisposição para conviver e viver coletivamente está impressa em nossas almas.
Não se trata simplesmente de preservar o meio ambiente e fomentar a sustentabilidade ambiental – o que já seria muito, mas de preservar os princípios sociais e de direito que permitem a vida em coletividade. Do contrário, não tardaria e todos nós estaríamos em uma guerra autodestrutiva.

Assista ao vídeo:

Veja mais sobre consumo e consciência coletiva:

A sustentabilidade é incompatível com o supérfluo

As novas gerações assistem online uma sucessão de desastres naturais ou de natureza mista (aqueles cujas causas contribuintes também incluem a atividade humana) que muitos de nós não testemunhamos no passado. Aparentemente não apenas devido às novas tecnologias que permitem a transmissão de cenas assustadoras em tempo real, onde quer que estejam acontecendo no planeta, mas possivelmente porque tais mega-desastres parecem ter sido registrados com maior freqüência nos anos recentes.

Deve haver um montão de teorias e discussões sobre o assunto, mas o propósito do presente escrito é mais o de discutir as possíveis conseqüências gerais destes desastres e alertar que devemos agir e nos preparar para enfrentar o pior, ainda que ele não nos ocorra.

Miremos o exemplo japonês e perguntemos: qual seria o impacto de um terremoto seguido de tsunami, como ocorreu agora em 11/03/2011 no Japão, ou de desastre similar, em nosso Brasil ou na América Latina?

Há indicadores que demonstram que se um desastre natural pode causar efeitos sérios em um país, seus efeitos equivalentes poderiam ser devastadores em um outro, pois diferentes localidades possuem diferentes vulnerabilidades e capacidades de lidar com as catástrofes, incluindo a prevenção, o seu enfrentamento e a recuperação subseqüente.

O BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento considera que o “Risco de desastres naturais continua alto na América Latina e Caribe” e adota indicadores de riscos de desastres naturais para medir tal risco: “(…) se o Peru fosse atingido hoje por um terremoto similar ao que atingiu o Chile mais no início deste ano, poderia sofrer perdas econômicas de até US$ 15,8 bilhões. Um evento semelhante poderia causar perdas de até US$ 5,2 bilhões no México, US$ 3,8 bilhões na Colômbia e US$ 3,5 bilhões no Equador”.

A mensuração dos fenômenos é o primeiro passo para compreendê-los e para lidar melhor com eles. Uma das principais lições que podemos tirar dos citados índices, além do alerta para a necessidade de prevenção e preparação para desastres, é de que tais desastres podem provocar prejuízos em perdas humanas, sociais e econômicas que muitos países não são capazes de enfrentar. Logo, a menos que contem com generosa e ampla ajuda externa, nunca poderão se recuperar. E como vivemos na era global, os efeitos acabam sentidos por todos, de uma maneira ou de outra, mais cedo ou mais tarde.

Um destes indicadores é o Índice de Déficit por Desastres (IDD), que “compara as perdas econômicas potenciais que um país pode sofrer e a capacidade financeira do governo para lidar com esses custos“. Há países da América Latina que possuem este índice com valor superior a um, indicando que as perdas potenciais são maiores que as respectivas capacidades de recuperação.

Lembramos do caso do terremoto do Haiti em 2010, país cuja miséria se agravou sobremaneira após o desastre e parece continuar na mesma situação, especialmente devido a haver pouco interesse econômico em transferir rios de dinheiro para recuperação daquele pobre território.

Há também o Índice de Desastres Locais (IDL), que “avalia os riscos sociais e ambientais derivados de desastres recorrentes de pequena escala, analisando o número de mortes, o número de pessoas afetadas e os danos a casas e plantações“. Estes chamam pouca atenção, especialmente da mídia, mas tendem a ocorrer repetidamente e os seus efeitos cumulativos dificultam o desenvolvimento econômico e social local e podem contribuir para criar a pobreza endêmica. Creio que podemos citar como exemplo o que ocorre nas regiões semi-áridas do Nordeste do Brasil, devido às secas endêmicas.

Um terceiro índice usado pelo BID é O Índice de Vulnerabilidade Prevalente (IVP), que “mede as condições de vulnerabilidade predominantes de um país avaliando a exposição da atividade humana e econômica em áreas sujeitas a desastres, bem como a capacidade de absorver os impactos de desastres. Os três indicadores que formam este índice composto consideram fatores como crescimento demográfico, densidade populacional, níveis de pobreza e desemprego, degradação do solo causada por ação humana, proporção dos gêneros, gastos sociais e seguros de infra-estrutura e moradia”.

Partindo do conceito do IVP, não é difícil entender a grande vulnerabilidade dos países da América Latina, incluindo regiões do Brasil, onde coexistem elevadas densidades populacionais, concentração maciça das populações em grandes centros urbanos que possuem precária infra-estrutura, pobreza, desemprego e ocupação irregular de morros ou áreas sujeitas a inundação, esta última uma busca desesperada por solução para moradia, proximidade do emprego e expectativa de vida digna. É aí que se constrói o cenário dos mega-desastres e os mais desfavorecidos são também os mais vulneráveis, quase sempre.

Finalmente, vejamos o que o BID registra sobre um quarto índice: “O Índice de Gestão de Riscos (IGR) combina várias medidas para avaliar a capacidade de um país identificar e reduzir os riscos, responder a catástrofes e recuperar-se delas e oferecer proteção financeira e transferência de risco. Todos os países analisados pelo índice apresentam níveis insatisfatórios de gestão de riscos de desastres”. Registro que o Brasil não foi avaliado.

A esta altura você já deve estar perguntando: e daí? O que é que eu tenho a ver com isto?

Eu diria que tudo, pois embora pouco provável que ocorram no Brasil terremotos ou tsunamis como os da Indonésia, Haiti, Chile e Japão, as enchentes das regiões Nordeste, Sudeste, Sul, Norte ou Centro-Oeste podem afetar qualquer um de nós. E também estamos sujeitos a outros tipos de catástrofes. Para quem procura exercer a empatia, é possível imaginar o sofrimento e desgraça que se abatem sobre as pessoas vítimas das emergências e calamidades públicas. Para quem tem maior dificuldade em sentir a desgraça alheia, há outros argumentos.

Além da solidariedade requerida de todos nós cidadãos para com os povos atingidos (num futuro post falarei sobre a importância do voluntariado nas calamidades públicas), precisamos nos preparar para enfrentar os desastres naturais. Como vimos, quanto mais bem preparados estivermos, menores serão os prejuízos, mais rápida a recuperação e maior a chance de rápido retorno à normalidade. O outro caminho seria pagar para ver, correndo o risco de nunca mais nos recuperarmos, ou coisa muito pior.

Por vezes pensamos que estamos totalmente seguros e que nossas vidas jamais sairão dos trilhos em que se encontram. Torço que seja assim para cada um de nós.

Mas nem sempre é assim. Veja abaixo a “vida fora dos trilhos e de pernas para o ar” em Branquinha, Alagoas, em decorrência das enchentes em junho de 2010: um tsunami de água doce varreu boa parte da cidade.

Proponho as seguintes reflexões:

Você acha que estamos preparados para enfrentar desastres naturais, quem sabe mesmo uma nova era de desastres decorrentes do aquecimento global?

Você se vê enfrentando um grande desastre natural, como este que ocorreu no Haiti em 2010 ou no Japão em 2011?

Você se vê, de uma hora para a outra, perdendo tudo o que tem?

Você se vê, de uma hora para a outra, dependendo da solidariedade alheia?

O que é que você, eu e nós todos temos a ver com isso?

No nosso mundo, todos estamos ligados, numa teia bem elaborada e intricada, onde as relações de causa e efeito são inexoráveis. Há algo denominado “Efeito Borboleta (The Butterfly Effect)”:

É um termo que se refere às condições iniciais dentro da teoria do caos. Segundo a cultura popular, (…), “o bater de asas de uma simples borboleta poderia influenciar o curso natural das coisas e, assim, talvez, provocar um tufão do outro lado do mundo”. Certamente que é uma metáfora.

Não ouso afirmar categoricamente que a nossa opção pelo consumo quase sem freios, que a exploração desmedida dos recursos naturais do planeta em busca do crescimento econômico “sustentável” e que a destruição das florestas e hábitat em todo o planeta são a única causa das mudanças climáticas que ora testemunhamos. Muito menos acharia razoável afirmar que tais comportamentos sejam a causa dos terremotos e tsunamis que atingiram o Japão em 2011, causando tantas mortes e destruição. Mas dizem que este desastre mudou o eixo da Terra e, quem sabe, pode mudar nossas vidas. Não importam tanto as causas, mas o problema também nos diz respeito.

Por outro lado, ouso acreditar que tudo e todos estão interligados neste mundo. Sabe aquela idéia do filme Avatar? Pois bem, quem sabe nosso planeta não seja muito mais que um substrato sólido de matéria inerte, apenas um suporte conveniente para a nossa fugaz existência? E quem sabe o nosso Planeta Terra estaria tentando demonstrar algo para nós?

Opino que é melhor que estejamos preparados. Hoje, não basta ser sustentável, o que para muitos já seria um sonho, como é o meu caso.

Enquanto sociedade nos preparemos para promover a paz – para não enfrentarmos os efeitos da guerra e da anomia;

Trabalhemos para erradicar a fome – para que os famintos não destruam o meio ambiente em busca de sustento ou riquezas;

Promovamos políticas públicas para que não exista uma só pessoa sem teto ou sem terra – para que os desabrigados e desprovidos de meios de sustento não desmatem, nem invadam e construam em encostas, ou nos leitos de rios, ou nos mangues – pois ou ficaremos sem as árvores e sem as nascentes e a sua preciosa água potável, e as enchentes e avalanches de lama trarão conseqüências irreparáveis para cada um de nós.

Josué de Castro dizia: “Metade da humanidade não dorme porque tem fome e a outra metade não dorme porque tem medo dos que têm fome”. Pois acredito que tudo e todos estão interligados neste mundo: não viveremos seguros, nem em paz, nem saciados, nem tranqüilos, nem saudáveis, enquanto destruirmos o planeta, enquanto houver injustiçados, enquanto houver famintos, enquanto houver doentes, enquanto houver desabrigados, em qualquer lugar.

Se ainda não o fizemos, mudemos a nossa atitude em relação ao planeta e também em relação ao próximo.

Adotemos um novo comportamento enquanto consumidores, pensando na preservação do nosso meio ambiente;

Tomemos iniciativas para prevenção e enfrentamento dos desastres naturais, bem como de ajuda para todos aqueles que estão sofrendo os devastadores efeitos dos mesmos, pois gostaríamos que assim fosse feito por nós;

Pois estamos vivendo uma nova era, em que a consciência ambiental, a responsabilidade social, a empatia e a solidariedade serão fundamentais para a nossa própria sobrevivência.



Marina vai ao Acre para votar

Foto: Thays Cabette, Marina vai ao Acre para votar (do site: http://www.minhamarina.org.br)

Marina Silva, a candidata à Presidência da República que em 2010 levou as eleições para o segundo turno, com mais de 20 milhões de votos, como sempre arrasa!

Em seu artigo, destaca a importância estratégica do meio ambiente: está no núcleo das decisões onde aspectos econômicos, sociais, ambientais e culturais são indissociáveis. É necessário pensar em todos esses termos enquanto modelo de desenvolvimento.

Diante da gravíssima crise do aquecimento global, Marina ressalta na importância de buscar o que há em comum entre diferentes correntes de interesses. E a nossa própria sobrevivência e a do nosso planeta são aquilo que melhor representam esta identidade.

Países, instituições, empresas e indivíduos dependem agora da capacidade de adaptação e da revisão de conceitos. Agora só há lugar para economias sustentáveis e tecnologias limpas. Imagino que ela se refere a um Darwinismo econômico: só sobreviverão as espécies mais adaptadas ao novo ambiente.

A população está atenta e mais exigente, quer saber se um produto causa danos ao meio ambiente. “E exige ética do mercado e do poder político”: pressiona para mudar a lógica do modelo de desenvolvimento destrutivo. “Preservar o meio ambiente não é mero romantismo”.

E as empresas já sabem que sem sustentabilidade, o lucro não será o mesmo. É necessário adotar um novo código de inserção social e ambiental (observei que marina sempre respeitou a ordem de citação “social” em primeiro lugar, não esquecendo a importância da dimensão humana do problema).

Marina ressalta o maior obstáculo às mudanças estruturais requeridas: a resistência do poder político ao desejo popular. Priorizam o crescimento rápido e fácil aos compromissos assumidos (se é que muitos dos políticos assumem verdadeiramente algum compromisso com o bem comum, penso eu). Mas os políticos mantêm a retórica em favor da preservação da natureza.

Cita o retrocesso no Congresso Nacional, no tocante ao Código Florestal Brasileiro: o suposto confronto entre meio ambiente e produção agropecuária.

E conclama a população a cobrar dos políticos uma revisão de seus conceitos, para que não tragam retrocesso à legislação ambiental.

rio de sangue.ai

Por coincidência, assisti um documentário sobre Tim Butcher, autor do livro “Rio de Sangue” (Blood River), em que a dimensão humana é confrontada com a dimensão ambiental. Aborda a desastrosa colonização do Congo pela Bélgica, entre os séculos XIX e XX. A ganância pelo marfim, borracha, minérios e outras riquezas da África levaram a uma devastação ambiental assombrosa. Mas uma entrevistada chama atenção para algo que poderia passar despercebido: enquanto muitas horas de documentários foram dedicadas à destruição do habitat e eliminação dos gorilas daquele país, muito pouco se divulgou do genocídio e sofrimentos daquele povo que, ainda hoje, é afligido pelos gravíssimos efeitos da devastação ambiental imposta pela cobiça da civilização ocidental.

Mas a importância da dimensão social não passou despercebida no artigo de Marina Silva, enquanto elemento essencial do processo decisório relativo à gestão da sustentabilidade.

Leia a íntegra do artigo de Marina Silva: Uma evolução silenciosa, Revista Veja, edição especial sustentabilidade, dez/2010

Edição Especial sobre Sustentabilidade da Revista Veja

Capa da edição especial Sustentabilidade da revista Veja

A edição especial sobre sustentabilidade da Revista Veja, de dezembro de 2010, traz uma matéria que começa com a seguinte pergunta:

O Brasil pode crescer em ritmo chinês sem agredir o ambiente?

E a resposta, como poderiam esperar os mais céticos com a revista Veja, é:

SIM!

Vejamos os argumentos da Veja (e depois, uma oposição aos mesmos):

1) Agronegócio: o Brasil é campeão em produtividade e exportação. Área plantada e produção apresentam crescimento histórico. Ainda há cerca de 10% de terras ociosas para pecuária. No ritmo de crescimento do agronegócio, ou aumenta a produtividade ou haverá invasão da Floresta Amazônica.

O país dispõe de tecnologia para tal, acontece que é mais barato desmatar.

2) Energia: cerca de 74% da nossa energia é produzida por hidrelétricas. Nos próximos 1o anos a demanda deve crescer mais de 50%. Deve aumentar a participação dos combustíveis fósseis na matriz energética.

Nos próximos seis anos, seriam necessários investimentos de R$2 bilhões de reais, parte disto deveria ser investido em energia eólica. Do contrário, será necessário maior uso de energia térmica e nuclear.

3) Amazônia: estaria próxima do seu limite. Um aumento de 2% no desmatamento implicaria em sua transformação em savana, um ponto sem retorno. Um desastre ambiental, péssimo para a agricultura e produção de energia (faltou dizer que será péssimo para as pessoas e seres vivos em geral).

Não há qualquer registro de país que tenha sido capaz de conciliar preservação ambiental e expansão agrícola.

A solução seria adotar o novo Código Florestal, “mais realista que o anterior”. Preconiza as práticas de indenização a proprietários de terras para preservação da floresta, como na Costa Rica.

4) Saneamento: menos de 60% dos domicílios brasileiros têm saneamento. Mais de 8 bilhões de litros de esgoto são despejados nas nossas fontes de água. Ressalta que a poluição cresce com o aumento da industrialização e consumo. Menciona a China, com 50% de rios insalubres e possuidora de 16 cidades dentre as 20 mais poluídas do mundo.

Seria necessário investir 55 bilhões de reais por ano (isto mesmo! R$55bi/ano) nos próximos 10 anos.

5) Transportes: as rodovias e o diesel respondem por 2/3 dos transportes de carga. Nas cidades o modelo de transporte é o ônibus e automóvel particular (também combustíveis fósseis). Com maior produção, haverá mais transporte. Em péssimas estradas. Nas cidades sem metrô o trânsito tende a piorar.

Para gargalos da infraestrutura viária seriam necessários R$ 22 bilhões, especialmente para ferrovias em áreas produtoras.

6) Portos: o Brasil, um dos maiores exportadores de alimentos, tem infraestrutura portuária pífia e transporte 4x mais lento que portos similares. Isto gera grandes prejuízos e desperdício de alimentos. Ao ritmo de crescimento de exportações atual, seria necessário duplicar os portos em 8 anos.

A solução seria triplicar (isso mesmo, TRIPLICAR) os investimentos nesta infraestrutura.

7) Demografia: a fecundidade decresceu, e hoje é de 1,8 filhos por mulher (ao menos uma notícia alentadora). Crescimento econômico implica em aumento de emprego, renda e, portanto de consumo. Entretanto, para o ambiente, mais importante que o tamanho da população é o padrão de consumo (observe que o impacto ambiental das populações da América do Norte e Europa são significativamente maiores que as demais populações no mundo).

Seriam necessárias inovações na indústria e agropecuária para aumentar produtividade sem causar danos ambientais.

Uma leitura atenta dos argumentos, apresentados na própria matéria, deveria levar a uma conclusão oposta à resposta SIM. Não obstante serem plausíveis as hipóteses de soluções tecnológicas. Mas há muito mais que isso a considerar.

Sendo mais otimista e menos realista, o leitor concluiria por uma grande interrogação. Mas podemos “engrossar o caldo”, com alguns simples questionamentos:

1) Agronegócio e Amazônia:

– Uma sociedade apática vai cobrar as mudanças?

– O que faria os agricultores adotarem tecnologias mais caras, quando é mais barato desmatar? Novas leis? Legislação feita por nossos parlamentares corruptos, demagógicos e fisiológicos? O Congresso atual aprovaria o pagamento a proprietários de terras para preservarem florestas? Um valor hipoteticamente aprovado seria suficiente para competir com os lucros da atividade criminosa?

– Pouquíssimos fiscais seriam suficientes para zelar pelo cumprimento das leis em um território gigante? Ainda mais com a facilidade de corrupção fiscal, historicamente presente em nossas terras tupiniquins?

– E o orçamento para tudo isso? Lembremos que até a educação teve cortes orçamentários para 2011!

2) Energia, Saneamento, Transportes e Portos:

– De onde virão os bilhões e bilhões necessários para este magnífico Novo Milagre Econômico?

– Ainda que haja recursos – digamos que de Parcerias Público Privadas, como esperar tais decisões de investimento em infraestrutura produtiva, num país que optou pelos seguintes investimentos:

a) Copa do Mundo de 2014 (“investimentos” estimados em R$ 5 bi), só que estimativas realista são muito superiores);

b) Olimpíadas de 2016 (Rio se prepara para “investir” 25,9 Bi); e

c) Trem Bala? Trem Bala e Crescimento Sustentável?

E olhem que estamos comprometidos com tais investimentos voluptuários “até o pescoço” nos próximos anos. Em que medida estes investimentos ajudam em sustentabilidade ambiental ou em que se prestam à solução dos problemas na infraestrutura ferroviária, portuária, de transporte rodoviário e urbano, do saneamento, além da geração de energia limpa?

Charge de J.Bosco, Trem bala Rio - São Paulo

Charge de J.Bosco, Trem bala Rio - São Paulo, do link http://jboscocartuns.blogspot.com/

No caso do trem bala, estima-se:

– O gasto de R$ 33 bi com o trem bala seria suficiente para construir 300km de metrô, o que é cinco vezes a malha de São Paulo;

Este mesmo gasto seria suficiente para construir 11 mil km de ferrovias comuns (permitiria trocar grande parte do transporte em péssimas rodovias e queimando diesel por transporte em ferrovias novinhas, reduzindo, ainda, o grande desperdício de alimentos perdidos no transporte);

– Novamente, as previsões são muito otimistas. Outros países gastaram muito mais que o previsto no trem bala. E nossa topografia é desvantajosa em relação a estes, o que tende a aumentar ainda mais os gastos reais. Há quem acredite que o gasto com o trem bala vá dobrar. Isto significará maiores tarifas e/ou maiores incentivos fiscais, abrindo mão de mais arrecadação de impostos;

– Ainda, pode-se argumentar que este investimento é privado. Mas não esqueçamos que o Estado abdicará de anos de arrecadação de impostos, o que equivale a gastos. Sem falar que este serviço, com benefício fiscal, concorrerá com outros serviços de transporte, como ônibus e ponte aérea, com impacto negativo na arrecadação oriundas destas outras fontes;

– Investir em saneamento? Os fatos estão aí: milhões de pessoas sem saneamento, milhares de mortes, especialmente mortalidade infantil, por doenças ligadas à falta de saneamento. Qual foi a opção política? Copa, Olimpíadas e Trem Bala! O povo e a natureza podem esperar…

Além do mais, todos os anos milhões são gastos em saneamento, grande parte “enterrados” ou que escoaram pelos ralos da corrupção. E cadê a capacidade de realização e a efetividade dos gastos, nesta nossa cultura de desvios de recursos públicos, de ineficiência e de ausência de práticas de cidadania, na cobrança de adequada destinação dos recursos públicos?

3) Demografia e hábitos de consumo:

– Embora o crescimento das taxas de fecundidade estejam em declínio, eles ainda são positivos. Ou seja, nossa população ainda está crescendo. Quanto ao desmatamento decorrente da expansão das cidades onde vivemos, e do aumento do consumo, que tal apresentar projeções baseadas no comportamento recente, para saber se aumentará 2%, tornando a Amazônia uma Savana?;

– Nosso PIB está crescendo. Logo, estamos enriquecendo. Se seguirmos o mesmo caminho que os nossos irmãos ocidentais da America do Norte e Europa seguiram historicamente, e continuam seguindo, seremos cada vez mais insustentáveis.

– E nada indica que os debates sobre sustentabilidade e preservação ambiental vão conquistar o gosto da preferência popular. Basta ver os assuntos euforicamente disputados nas redes sociais!

Certamente ainda seriam pertinentes muitos outros argumentos, mas estes parecem bastar para ressalvar a leitura da matéria da Veja:

Os dados e argumentos apresentados são bons e verossímeis. Mas as conclusões… estas não são condizentes com a própria argumentação apresentada na matéria. Salvo se o leitor estiver movido por uma grande dose de otimismo e credulidade quanto ao bom comportamento da humanidade.

O que mais chama a atenção é a afirmação de que uma das chaves para a requerida sustentabilidade seriam:

“Inovação tecnológica só existe se há aumento do consumo, aumento da produção e da riqueza de um país.”

Segundo a matéria, seria um pensamento afim da teoria da curva ambiental de Kuznets (Prêmio Nobel de 1971). Em resumo: nas fases iniciais da industrialização ocorre um aumento da poluição e dos impactos ambientais, que depois se estabilizam e, por fim, decrescem, com o aumento do nível de renda e educação da população. Seria um padrão de “U” invertido.

A suposta adequação da teoria de Kuznets à idéia da sustentabilidade do crescimento chinês no Brasil (ou em qualquer outro país), em harmonia com a preservação ambiental, não se sustenta, devido a simples constatações, presentes na própria edição especial da Veja:

“A Europa detinha 7% das florestas do planeta e hoje conta com mísero 0,1%. Nos Estados Unidos, quase não há mais terras disponíveis para produzir alimentos.”

“Com as pegadas ecológicas da Oceania (5,4 gha), e dos Estados Unidos e Canadá (7,9 gha) precisaríamos parar em 2,5 bilhões e 1,7 bilhão de habitantes, respectivamente.”

(detalhe, hoje já temos 7 bihões de habitantes em nosso planeta, logo, estes países, que são os mais ricos e mais educados em todo o mundo, são os mais insustentáveis de todos! E quando os demais enriquecerem e forem educados, já não terão mais qualquer floresta ou ambiente natural.)

Ou seja, os focos do problema são dois, especialmente:

1) A quantidade de pessoas no planeta; e

2) O modelo de produção e consumo baseado no pressuposto do crescimento continuado e “laissez faire

(nos países ricos, é mais comum as pessoas ingerirem calorias além do necessário, para depois queimarem o excesso na academia ou pagando uma lipoaspiração. Ou consumirem quaisquer outras coisas desnecessárias. Já os pobres…).

A propósito, veja os links abaixo sobre um milionário australiano que ofereceu um prêmio de $1m para alguém que afronte o crescimento populacional global:

Bilionário oferece R$ 1,6 milhão para quem salvar mundo do crescimento

Dick Smith Population

Mas nem tudo está perdido. E espero que decidamos por um caminho que não leve ao nosso fim. De qualquer modo, a natureza deve sobreviver à espécie humana, embora não necessariamente como já foi um dia.

Talvez, depois de muito sofrimento de milhões de pessoas e de grandes catástrofes ambientais, cada vez mais inesperadas e surpreendentes, a população mundial – especialmente a que deveria ter mais discernimento – acorde e reveja os seus conceitos sobre o modelo de produção baseado em contínuo crescimento econômico, em consumo desenfreado, no desprezo pelas outras espécies de seres vivos e na exploração insaciável dos recursos naturais do nosso planeta.

São estas as conclusões que posso chegar com a leitura que faço do mundo. Pessimista? Creio que não, do contrário não estaria aqui discutindo o assunto, pois seria puro sadismo. Mas alguém poderia me mostrar uma leitura diferente?

De qualquer modo, façamos a nossa parte e tenhamos fé!

A matéria da Revista Veja é assinada por Gabriela Carelli. Os comentários são do autor do blog.

Sobre uma edição 2009 da Revista Veja, também sobre sustentabilidade, leia:

Discurso da Sustentabilidade

Hoje fiquei feliz ao receber uma edição especial da revista Veja, inteirinha sobre Sustentabilidade. Apenas comecei a ler.
Embora preocupantes algumas revelações sobre a (In)sustentabilidade do planeta Terra, dados os padrões de consumo atuais, penso que os 1,2 milhões de exemplares da revista, lidos por formadores de opinião que usualmente não estão em contato direto com a temática, poderão produzir um importante impacto positivo sobre os debates a respeito do tema.

Não que devamos adotar sem ressalvas as opiniões expressadas pois, à primeira vista, alguns pressupostos parecem um tanto otimistas, distantes da realidade.

Isto exigiria consciência e comportamentos hoje inexistentes, para a maioria das pessoas em todo o mundo, mesmo entre as pessoas com elevada escolaridade. Além do mais, seria necessário que outros não crescessem como nós (Veja o artigo: Crescimento sustentável? Não, obrigado.).
Além de decisões de investimento contrárias às práticas globais de indústria e comércio, quando via de regra se adota a solução mais econômica e não aquela que, embora mais cara, é melhor para o meio ambiente.

Algumas revelações do primeiro artigo, assinado por José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia da Escola Nacional de Ciências Estatísticas, Ence/IBGE:
1) a Terra tem 7 bilhões de habitantes em 2010, possui 13 bilhões de giga-hectares produtivos, sua população ostenta um consumo que iria requerer um planeta com 18 bilhões de gha, de modo a não comprometer o ambiente nem as necessidades das gerações futuras;
2) Ou seja, já extrapolamos a capacidade de regeneração do planeta!
3) No padrão de consumo europeu e norte-americano, o planeta Terra é ainda mais insustentável. Este é aproximadamente cinco vezes maior do que o consumo dos africanos, numa unidade que ele chama de “pegadas ecológicas” (Veja aqui o tamanho da sua Pegada Ecológica!);
4) Até 2050 a Terra terá até 10bi de habitantes e o PIB deve crescer 3,5% ao ano. Logo, o consumo aumentará.

Pergunta-se, então: O que será do Planeta?

Segundo a matéria da Revista Veja, para retornarmos à sustentabilidade do Planeta existente em 1976, teríamos de reduzir o consumo em 33%, nos próximos 20 anos.
Isso exigiria não só uma revolução tecnológica, para aumento de produção e produtividade, sem comprometer ainda mais recursos. Exigiria uma verdadeira revolução comportamental, no tocante ao uso dos recursos, interações com o ambiente e, principalmente, quanto aos hábitos de consumo.
Será que o povo topa?
Eu penso que a tecnologia pode até multiplicar a produção, sem aumentar a área explorada. O problema é convencer as pessoas a não se multiplicarem!
Se aqui no Brasil ainda temos cerca de 50% de analfabetismo funcional, imaginem em países mais pobres! Não é nada fácil conseguir tal revolução em um mundo como este. Penso que dias difíceis virão. Quanto antes arregaçarmos as mangas, melhores serão as nossas chances.
E que os temas preservação e sustentabilidade entrem definitivamente no debate global.
Edição Especial sobre Sustentabilidade da Revista Veja

Veja uma discussão detalhada sobre matéria da edição em:

O Crescimento econômico brasileiro em ritmo chinês é compatível com a preservação ambiental?

“O especial, que usará papel 100% certificado, traz uma novidade: será totalmente impresso em tinta à base de óleo vegetal. Trazendo em seu cardápio editorial temas como as empresas que ganham dinheiro trabalhando de forma sustentável, fontes de energia alternativas, artigos de líderes internacionais, pontos abordados na COP – Conferência das Nações Unidas, dentre outros. VEJA Sustentável terá distribuição gratuita para assinantes e venda em bancas, livrarias, revistarias e redes de supermercados.”