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O Suicídio da Venezuela (The suicide of Venezuela)

Autor: Joel D. Hirst

(Joel D. Hirst é um romancista e dramaturgo, autor de “The Lieutenant of San Porfirio” e sua continuação “The Burning of San Porfirio”. Joel também escreveu, “Dreams of the Defeated – A Play in Two Acts” e seu terceiro romance “Lords of Misrule” está agendado para lançamento no verão. Você pode visitá-lo em http://www.joelhirst.com)
Esta é uma tradução livre do artigo “The Suicide of Venezuela” – por A. Valença, com a permissão do autor. Publicado no site https://joelhirst.wordpress.com/2016/04/23/the-suicide-of-venezuela/

Nunca esperei testemunhar o lento suicídio de um país, uma civilização. Suponho que ninguém espera.

Deixe eu dizer a você, não há nada de épico nisso. Nós que tivemos o privilégio de viajar, frequentemente nos deparamos, com satisfação, com as ruinas da Grécia antiga; o Parthenon iluminado com luzes azuis e verdes. A Acrópole. O Coliseu em Roma. Nós caminhamos nas ruas empoeiradas de Timbuktu e vemos as antigas mesquitas cobertas de musgo e pensamos na época em que esses lugares tinham energia e propósitos. Eles não eram monumentos tristes para turistas como nós. O tempo deu um polimento sobre o desastre.  Atualmente tudo que restou foram grandes e velhas construções que contam a história de quando as coisas eram extraordinárias, não de como elas foram paulatinamente deixadas de lado. “Não houve razões, não realmente,” dizemos uns aos outros quando desembarcamos de nossos ônibus refrigerados. “Essas coisas acontecem. Nada é para sempre; e não foi falha de ninguém. É só o jeito como o mundo é,” nossas taças plásticas de vinho nas mãos. O tempo flui e reflui, lentamente desgastando as fundações de uma civilização até que ela colapsa sob ela mesma – pelo menos é isso que dizemos para confortar a nós próprios. Não há nada a fazer sobre isso. “O país declinou – e extinguiu-se – esse é o jeito como as coisas são.”

Nós, turistas, estamos errados.

Eu sei, porque eu tenho testemunhado o suicídio de uma nação; e eu sei agora como isso acontece. A Venezuela está lentamente, e muito publicamente, morrendo; um ato que tem se prolongado por mais de quinze anos. Ver um país matar a si próprio não é alguma coisa que frequentemente aconteça. Por ignorância, alguém pode presumir que isso seria rápido e brutal e conflituoso – como o genocídio de Ruanda ou o cataclisma do vulcão Vesúvio em Pompéia. Você espera ver corpos ou mães abraçando protetivamente seus filhos; carbonizados pela força ou preservados em brilhantes registros fotográficos. Mas esses não são eventos que causem suicídios de nações. Depois de eventos como esses os países se recuperam – o povo se recupera. Eles reconstroem, eles reconciliam. Eles perdoam.

Não, suicídios de nações são processos muito mais longos – não produtos de um momento. Mas de uma má ideia, depois outra, depois uma outra, e outra, e outra, e uma mais, e as rodas que movem um país começam a emperrar, a mover-se mais lentamente, mais lentamente, a poeira e a ferrugem cobrindo suas, originalmente, reluzentes fachadas. Revolução – frieza e raiva. Ódio, como estratégia política. Leis, usadas para dividir e conquistar. Regulação, usada para punir. Eleições usadas para legitimar ditaduras. Corrupção sangrando a energia vital em gotas, enchendo os bolsos de sucessivos níveis hierárquicos de burocratas antes que eles sejam destruidos, e substituidos por outros, e outros. Isso para mim é que é impressionante sobre a Venezuela. Em minha defesa – por fraca que seja – eu tentei lutar contra o suicídio o tempo inteiro; de uma forma ou de outra. Suponho que ainda esteja lutando, meus escritos como última linha de resistência. Mas como Dagny Taggart (personagem da série “A Vingança de Atlas” – executiva de uma ferrovia / nota do tradutor) eu descobri que não há nada para lutar contra – foi tudo uma fedorenta mistura de  ressentimentos e desculpas. “Você não deveria fazer isso.” Eu disse. E de novo, “Essa lei não vai funcionar,” e “essa eleição não trará nenhuma liberdade”, enquanto também, “o que você planeja não trará prosperidade – e a única igualdade que você encontrará será a linha mínima de sobrevivência” (bread line – linha do pão, numa tradução literal: nota do tradutor). E eu não estava só; um exército de pessoas mais inteligentes do que eu alertaram publicamente em jornais, e em fóruns de discussão, e em programas de televisão, e em encontros comunitários, e em campanhas políticas, que o resultado seria um suicídio nacional coletivo. Ninguém estava ouvindo.

Então eu deixei de lado. Eu ajudei Uganda a recuperar-se depois de 25 anos de guerra civil – limpando os campos e trazendo o povo para retomar suas vidas. Eu ajudei o retorno da democracia no Mali, e a consolidar o processo de paz. Eu escrevi 3 livros. Eu me mudei, me mudei, e me mudei novamente. Eu amo minha esposa; nós tiramos férias juntos. Nós visitamos Marrakesh, e o Cairo, e Zanzibar, e Portugal, e o Grand Canyon. Nós tivemos cirurgias. Tive um filho. Nós ensinamos nosso filho a sentar, a engatinhar, a andar e a correr; a cantar e gritar e dizer palavras como “clorofila”, e “fotossíntese”. A dizer os nomes dos planetas um por um, a escrever o seu nome.

Por todo esse tempo o agonizante e lento suicídio continuou.

E sempre, logo cedo no café eu abro o meu computador e documento, nem que seja só para mim mesmo, o próximo ato no longo e trágico suicídio da Venezuela. Eu converso com meus amigos, que continuam a tentar explicar ao idiota o porquê da miséria deles ser um resultado direto de uma má ideia construída sobre o último grande edifício da estupidez. Bons homens e mulheres que estão presas em um debate de duas décadas, do qual não há escapatória. Eu faço preces silenciosas para o próximo de uma longa fila de prisioneiros políticos. Eu olho para fotografias de lugares que eu conhecia – praias onde eu fui e restaurantes que eu frequentava; cobertos de lixo, ou tapumados e fedorentos. Eu assisto vídeos de saques noturnos de supermercados, que são fortuitos o bastante para conseguir o suprimento de alguma coisa.

Hoje à noite não há luzes. Como a New York City de “Atlas Shrugged”, de Ayn Rand, os olhos do país foram arrancados para alimentar os mendigos famintos em edifícios, que já foram apartamentos de luxo, abandonados e ocupados. Eles culpam o clima – o governo faz isso – como os xamãs tribais de antigamente, que fizeram sacrifícios aos deuses na esperança de uma intervenção. Também não há comida; eles dizem às pessoas para esperar, para criar galinhas nos terraços de seus outrora glamourosos apartamentos. Não há água – e eles dão lições na TV estatal de como lavar-se com um copo de água. O dinheiro é inútil; as pessoas pagam agora com batatas, se eles podem encontrá-las. Médicos operam utilizando a luz de seus smartphones; quando há energia suficiente para carregá-los. Sem anestesia, é claro – ou antibióticos, como nos dias anteriores ao advento da medicina moderna. O serviço de telefonia foi cortado – em breve a internet também o será e uma escuridão total permeará tudo sobre uma terra selvagem.

A maratona de destruição está quase terminada; a energia vital da nação está quase no fim. Não, não há nada de heróico ou épico aqui; ruínas no processo são eventos tristes – desprovidos do manto reconfortante do tempo, que empresta intriga e inevitabilidade. E ver isso tem sido, para mim, uma das grandes tragédias da vida.

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O novo Código Florestal e os desastres ambientais: o que há em comum entre a monocultura, a cana-de-açúcar, a criação de bovinos, a pobreza, políticos corruptos, a destruição da mata ciliar e as enchentes, enxurradas e inundações?

Publicado: 20/05/2011 em Cidadania, Ecologia, Meio Ambiente, Saúde, Sustentabilidade
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O caderno Ciência e Meio Ambiente do Jornal do Commercio, domingo, 08 de maio de 2001, folha 5, trouxe a seguinte matéria:

“Mata ciliar é solução para as inundações”.

Fiquei muito animado com a notícia! No momento, o novo Código Florestal é discutido no Congresso Nacional, promovendo a tentativa de reduzir as áreas de preservação de florestas em margens de rios (mata ciliar), por grupos cujos principais interesses são egoístas e que ignoram as necessidades e sofrimentos coletivos, além do imperativo da preservação ambiental.

Ao mesmo tempo, vemos se multiplicarem os desastres ambientais, a exemplo das enchentes, enxurradas, inundações e deslizamentos de terra, em 2010 e 2011, atingindo Pernambuco, Alagoas, Região Serrana do Rio de Janeiro e outras regiões do Brasil, como as regiões Sul, Centro-Oeste e Norte, com mortes e grande número de pessoas desalojadas e desabrigadas. Muitas dessas pessoas estão desabrigadas desde desastres ocorridos anteriormente ao último registrado. E, não bastasse a tragédia humanitária e as perdas de vidas, os brasileiros em geral, toda a nação, têm de arcar com o incalculável custo de recuperação e reconstrução daquilo que foi destruído. É bom lembrar que as populações mais pobres são aquelas que geralmente sofrem as principais conseqüências dos desastres, aqui e em todo o mundo.

Os artífices do novo Código Florestal argumentam que não há “provas científicas” que justifiquem a manutenção da mata ciliar!

Me poupem, ilustres parlamentares!

Quando se trata de segurança e sobrevivência da humanidade, prevalece o princípio da segurança e torna-se desnecessário provar o óbvio, o ululante. Na dúvida, preserve!

Mas, ainda assim, o cientista ambiental André Alcântara, sob a orientação do pesquisador Ricardo Braga, com apoio da Sociedade Nordestina de Ecologia e com financiamento pelo Fundo Nacional do Meio Ambiente, provou para os céticos, inconseqüentes e egoístas que a mata ciliar precisa ser protegida:

“a vazão da água é bem maior em áreas cultivadas que em áreas florestadas”.

Mas o que isso significa? A tabela a seguir ilustra os resultados e alcance do estudo:

Local

Vazão

(l/s por km2)

Oxigênio dissolvido na água

Necessidade de tratamento da água para consumo

Estação 01 – Próximo da nascente: rio margeado por floresta Atlântica

24,7

Acima do necessário para a água ser considerada própria para consumo Necessita apenas cloração
Estação 02 – Rio cercado por agricultura de subsistência e mata em regeneração

62,6

Próximo do mínimo necessário para a água ser considerada própria para consumo Necessita de tratamento completo
Estação 03 – Margens ocupadas por pasto e canavial

177,6

Muito abaixo do mínimo necessário para a água ser considerada própria para consumo Necessita de tratamento completo

Ou seja:

“em áreas cultivadas, a vazão do rio é sete vezes maior que nas áreas florestadas”, pois onde havia pasto e cana a vazão chegou a 177,6 litros.

Traduzindo, em termos práticos, acrescento aqui uma pequena contribuição ao debate:

Quais são os municípios pernambucanos (e provavelmente também alagoanos) mais atingidos pelas enchentes em 2010 e 2011? Quais as suas principais formas de exploração e uso do solo, conforme dados de 2010?

Município

Situação de desastre ambiental em 2010 e 2011

Densidade demográfica (hab/km2)

Taxa de urbanização (%)

Renda per capita

Taxa de analfa-betismo

– 15 anos e mais (%)

Principal cultura -agrícola e pecuária

(maior valor da produção em R$ e maior efetivo dos rebanhos, respectivamente)

Água Preta Calamidade Pública 60,84 56,61 65,5 39,60 Cana-de-açúcar e bovinos
Barreiros Calamidade Pública 174,49 83,42 93,22 30,76 Cana-de-açúcar e bovinos
Catende Calamidade Pública 182,82 76,33 104,19 33,94 Cana-de-açúcar e bovinos
Cortês Calamidade Pública 122,94 63,45 74,18 36,09 Cana-de-açúcar e bovinos
Jaqueira Calamidade Pública 129,22 61,57 65,03 39,94 Cana-de-açúcar e bovinos
Maraial Calamidade Pública 62,46 70,03 60,57 42,77 Cana-de-açúcar e bovinos
Palmares Calamidade Pública 176,71 78,76 134,47 27,78 Cana-de-açúcar e bovinos
Primavera Calamidade Pública 122,24 63,84 84,88 32,67 Cana-de-açúcar e bovinos
Xexéu Calamidade Pública 127,18 65,04 64,99 43,94 Cana-de-açúcar e bovinos
Quer mais? Veja a tabela completa, ao final, incluindo municípios em situação de emergência.Dados: http://www.bde.pe.gov.br/ArquivosPerfilMunicipal

São justamente aqueles municípios que têm os tipos de agricultura e pecuária apontados como tendo maior vazão em decorrência das chuvas. Não bastasse a pesquisa sobre vazão menor em áreas com preservação de matas ciliares, realizada em Pernambuco, acrescentam-se os dados acima, que são óbvios, ululantes!

Erosão do solo pelas águas em plantio de cana-de-açúcar

Erosão do solo pelas águas em plantio de cana-de-açúcar

O que possuem em comum os municípios de Pernambuco, em estado de calamidade pública, em decorrência das enchentes em 2010 e 2011? (pode incluir também aqueles em situação de emergência)

a)      Cana-de-açúcar como principal cultura agrícola;

b)      Criação de bovinos em pastagens como principal atividade agropecuária;

c)       Geralmente possuem elevadas densidades populacionais (é provável que este seja um dos principais componentes dos graves desastres ambientais!);

d)      Geralmente possuem elevado percentual de urbanização;

e)      Geralmente possuem baixa renda “per capita”;

f)       Geralmente possuem elevados percentuais de analfabetismo entre jovens e adultos, ao qual podemos somar o analfabetismo funcional.

Todos esses fatores estão relacionados entre si e também com baixos IDH (índice de desenvolvimento humano), péssimos indicadores de saúde, elevado desemprego, grande violência e outras mazelas.

Neste contexto, é difícil esperar o exercício efetivo da cidadania. Ainda mais, esperar que essas pessoas pensem e lutem pelo meio ambiente, se não percebem que as suas condições de vida estão associadas a todos esses fatores. Suas crianças e jovens mal podem freqüentar as escolas, com estradas e pontes esburacadas, enlameadas ou interrompidas pelas sucessivas enchentes, além do ainda existente trabalho infantil.

É o alto preço cobrado devido à opção histórica pela monocultura, ocupação e exploração desordenada do solo e abandono educacional das pessoas!

Certamente que a cultura da cana-de-açúcar e a pecuária têm sua importâncias para as pessoas. E certamente que há municípios com cana-de-açúcar e bovinos como principais atividades agropecuárias e que não estão em estado de calamidade pública, e vice-versa. Mas as realidades de Pernambuco e Alagoas são sintomáticas.

Estudos “científicos” de associação de causa e efeito entre múltiplos fatores, tais como fatores ambientais, sociais, econômicos e culturais não são fáceis, tampouco estarão isentos de críticas quanto aos seus alcances e validades. Porém, deixo esta proposta para os pesquisadores em geral, para que realizem vários estudos científicos envolvendo essas temáticas, com grandes promessas de recompensa para a humanidade.

Finalmente, do que foi exposto até então, algumas soluções emergem como óbvias:

– É necessário preservar, recuperar e ampliar a mata ciliar e as florestas em geral. Precisamos de um NOVO Código Florestal que preserve e aumente as florestas, não precisamos de um pernicioso código florestal que proclame a sua dizimação e exploração irracional. Mas, acima de tudo, precisamos desenvolver uma consciência coletiva de respeito ao meio ambiente e à coletividade, que vá além do dever ser das leis, que faça acontecer. Afinal, de “boas” leis o Brasil está cheio. Faltam os bons costumes;

– É necessário educar as pessoas, libertando-as dos grilhões que as prendem à exploração política e à miséria. Educação e cidadania têm de sair dos discursos vazios e mentirosos de candidatos irresponsáveis e despreparados, tornando-se resultados concretos por intermédio de administradores públicos profissionais, competentes e comprometidos com a coletividade;

– É necessário diversificar as culturas agrícolas e pecuárias, explorando-as de forma respeitosa à preservação do meio ambiente e recursos naturais, assim como adequada às necessidades das pessoas, de suas famílias e de suas coletividades;

– É necessário fixar os homens e suas famílias no campo, provendo terra e condições adequadas para a produção agropecuária sustentável. Enquanto consumidores, deveríamos assumir compromisso de compra junto aos agricultores familiares, que teriam a certeza de continuidade de suas atividades, permanecendo no campo. Enquanto governo, aplica-se o mesmo. Aliás, isto já é feito pelo Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA), que em Pernambuco, atualmente, adquire da agricultura familiar e distribui com as famílias atingidas pelos desastres;

– É necessário reduzir a urbanização e os grandes adensamentos populacionais. Devemos falar em interiorização das populações, mas também creio que devemos perder o medo de falar em controle de natalidade e sobre o controle do crescimento populacional!

Pois aí estão as causas dos desastres naturais, da pobreza e dos principais flagelos da humanidade, incluindo a fome, a falta de abrigo salubre, as doenças, a violência e a miséria. Não é assim que queremos viver a humanidade!

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