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O que diferencia as ONGs genuínas das ONGs “Pilantrópicas?”

Existem diferenças entre Terceiro Setor, Organizações Não Governamentais – ONGs, Organizações Sociais – OS e Organizações Sociais de Interesse Público – OSCIP. Dentre estas existem as filantrópicas, na acepção da palavra, bem como aquelas que, devido ao seu modus operandi, o senso comum apelidou-as de “pilantrópicas”.

O processo de desenvolvimento econômico e social é composto pelo Estado (primeiro setor), pelo empresário privado que almeja lucro (segundo setor) e por entidades privadas sem fins lucrativos (terceiro setor). O Estado possui competências próprias e exclusivas. As entidades com fins lucrativos participam do processo de geração de emprego e riquezas. Já o terceiro setor, deve possuir ação pública apenas complementar ou supletiva, atuando em benefício daqueles que não são satisfatoriamente alcançados pela ação estatal.

As entidades do terceiro setor ao se qualificarem enquanto OS (Lei 9.637/98) ou OSCIP (Lei 9.790/99) se habilitam a receber recursos públicos para implementação de projetos.

As OS e OSCIPS nascem na iniciativa privada, para colaborar operacionalmente com o Estado. As demais ONGs não mantêm qualquer vínculo operacional com o Estado.  Embora possam colaborar com o Estado, não raro são críticas e demandam deste atuação mais efetiva ou diferente da empreendida.

Um bom exemplo de trabalho que encarna genuinamente o espírito das ONGs é aquele que foi desenvolvido por Zilda Arns Neumann. Fundou e coordenou a Pastoral da Criança. Usando a metodologia comunitária de multiplicação do conhecimento e da solidariedade entre as famílias mais pobres, reproduziu o milagre da multiplicação dos peixes e dos pães. Diz-se que, ao meditar a respeito de trecho do evangelho sobre a multiplicação dos peixes, chegou à conclusão que, “ […] em vez de ficar dependendo do governo, nossas famílias deviam se organizar para cuidar de seus filhos” (ALGO MAIS, 2010a, p. 41, grifo nosso). Sondou as comunidades e descobriu lideranças capazes de serem motivadas e preparadas para o trabalho de ações básicas. Fortalecendo as suas auto-estimas, essas pessoas faziam o bem aos vizinhos, sem gastar dinheiro. Multiplicados, tornaram-se um exército de voluntários. E o assistencialismo não estava em questão neste voluntariado. A transformação da comunidade vem pelos próprios integrantes, pela prática da fraternidade e não por interesses políticos ou partidários.

Ressalte-se que “[…] a pastoral da criança gasta em torno de R$ 1,30 por infante para o acompanhamento mensal. Enquanto o Governo está gastando mais de um salário para recuperar as crianças. Zilda Arns alertava: se o trabalho não é feito de fé, irá se acabar (ALGO MAIS, 2010a, p. 41-42, grifo nosso).

“em vez de ficar dependendo do governo, nossas famílias deviam se organizar para cuidar de seus filhos”

Um outro bom exemplo é a Associação Beneficente Criança Cidadã – ABCC, que desenvolveu o exitoso projeto “Orquestra Criança Cidadã Meninos do Coque”, com o objetivo de profissionalizar para o ofício musical 100 crianças e adolescentes com idades entre 8 a 15 anos. Baseia-se no método Suzuki de ensino, participação ativa dos pais, ensino integral, garante inclusive as três refeições diárias, além de atividades esportivas e arte-educativas aos finais de semana. As crianças do projeto foram selecionadas em escolas públicas, levando em conta critérios como desempenho escolar, assiduidades e avaliação vocacional. A ABCC é uma instituição sem fins lucrativos, tem apoio do Poder Público e Sociedade Civil Organizada, e a sua missão é fazer cumprir o que prega o Estatuto da Criança e do Adolescente. Sua iniciativa partiu do Poder Judiciário local, em 2002 (ALGO MAIS, 2010b).

Diversos públicos já se emocionaram com os resultados excepcionais deste projeto dos meninos do Coque. Tive a oportunidade de assistir a uma destas apresentações. As crianças tocam como verdadeiros profissionais. E é visível a elevada auto-estima das crianças, rivalizando esta, apenas, com a admiração e reconhecimento do público com a sua performance musical e social. No início do show os ouvintes são apresentados ao trabalho cidadão. E são alertados que cada criança do projeto, estudando, se profissionalizando, se alimentando e se integrando socialmente, custa em torno de R$ 1.000,00 por mês, ao passo que a manutenção de um preso no sistema carcerário custaria em torno de R$ 2.600,00, sem nenhum resultado visível quanto à ressocialização (o grifo é nosso). Caberia a nós escolhermos um destes dois caminhos, diz o apresentador.

“cada criança do projeto, estudando, se profissionalizando, se alimentando e se integrando socialmente, custa em torno de R$ 1.000,00 por mês, ao passo que a manutenção de um preso no sistema carcerário custaria em torno de R$ 2.600,00, sem nenhum resultado visível quanto à ressocialização”

O que estas duas ONGs têm em comum? Creio que lideranças representativas, capazes e verdadeiramente solidárias, seriamente comprometidas com as suas missões, que realizam um trabalho desprendido de interesses econômicos, políticos ou partidários, aptas a mobilizarem a sociedade e os seus recursos, de modo a que beneficiadores e beneficiários possam, por meio de esforços conjuntos, desenvolverem e expressarem os seus melhores esforços, qualidades e conquistas, em benefício de toda a sociedade.

Mas, infelizmente, nem todas as ONGs parecem agir assim, ainda que qualificadas como de interesse ou de utilidade pública, ou beneficentes de assistência social. E nem sempre as boas ONGs são aquelas escolhidas pelos gestores públicos para se tornarem parceiras, ao contrário do que parece ser muito comum entre as “pilantrópicas”. E há um filme que ilustra, com precisão, o que pretendemos discutir nos tópicos adiante. Dizem as resenhas do filme “Quanto vale ou é por quilo?”:

O filme faz uma analogia entre o antigo comércio de escravos e a atual exploração da miséria pelo marketing social, que formam uma solidariedade de fachada. O filme faz uma grande crítica as ONGs e suas captações de recursos junto ao governo e empresas privadas (WIKIPEDIA, 2010).

Adaptação livre do diretor Sérgio Bianchi para o conto “Pai contra Mãe”, de Machado de Assis, Quanto Vale ou É Por Quilo? desenha um painel de duas épocas aparentemente distintas, mas, no fundo, semelhantes na manutenção de uma perversa dinâmica sócio-econômica, embalada pela corrupção impune, pela violência e pelas enormes diferenças sociais. No século XVIII, época da escravidão explícita, os capitães do mato caçavam negros para vendê-los aos senhores de terra com um único objetivo: o lucro. Nos dias atuais, o chamado Terceiro Setor explora a miséria, preenchendo a ausência do Estado em atividades assistenciais, que na verdade também são fontes de muito lucro. Com humor afinado e um elenco poucas vezes reunido pelo cinema nacional, Quanto Vale ou É Por Quilo? mostra que o tempo passa e nada muda. O Brasil é um país em permanente crise de valores  (Interfilmes, 2010).

Há sempre os que ignoram ou mesmo tripudiam dos valores da democracia e do Estado Democrático de Direito, e deste modo, da própria coletividade nacional. Assim como também há malfeitores à espreita, na espera de oportunidades para pilhar o patrimônio coletivo. Suas condutas contribuem para o esgarçamento da delicada teia social.

Apesar de tudo, existiram e ainda existem pessoas como o maestro Cussy de Almeida, que dedicaram as suas vidas à construção de um mundo mais belo e semearam boas árvores, que darão bons frutos, a exemplo do fomento à Orquestra Cidadã Meninos do Coque, que certamente já produz bons frutos para a nossa sociedade. No momento de sua partida deste mundo, façamos ao maestro uma merecida homenagem. Agradeçamos a todas as pessoas como ele e sigamos os seus exemplos.

Referências

ALGO MAIS. Responsabilidade Social, Zilda Arns também ajudou os pernambucanos. Algo Mais, Recife: SMF/TGI, Ano 4, n. 47, p. 40-42, Fev. 2010.

ALGO MAIS. Orquestra Criança Cidadã dos Meninos do Coque forma crianças e adolescentes na arte da música. Revista Sim!, 2010. Disponível em: <http://www.revistasim.com.br/asp/imprimir_popup.asp? idtexto=4887&idsecao=12>. Acesso em: 14 maio 2010.

PEREIRA JÚNIOR, Jessé Torres; DOTTI, Marinês Restelatto. Gestão e Probidade na Parceria entre Estado, OS e OSCIP: Apontamentos sob a perspectiva dos Princípios e Normas Regentes das Licitações e Contratações Administrativas (Parte II). Boletim de Licitações e Contratos, São Paulo, n. 11, p. 1037-1052, nov. 2009.

WIKIPEDIA. Quanto vale ou é por quilo? Wikipedia, 2010. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/ Quanto_Vale_ou_%C3%89_por_Quilo%3F>. Acesso em: 11 maio 2010.

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Segundo Henry Miller, Brassai era “O olho de Paris” (1). Era como uma coruja, um profissional que levantava ao por do sol e não retornava para casa antes do amanhecer (2) [Em: (1) “Iconos de la Fotografia – El Siglo XX” e (2) “50 Photographers you should know”].

Nenhum outro fotógrafo foi capaz de lançar tanta luz sobre a vida cotidiana de Paris como Brassai. É como se o destino se mostrasse por meio de suas fotografias.

Brassai perambulava pelas ruas e pelas cafeterias parisienses em busca de imagens vivas. A fotografia existia inclusive antes de apertar o disparador. “Não inventava nada, mas imaginou tudo”.

À noite capturou cenas pitorescas, incluindo ruas e edifícios, a estação de Saint-Lazare deserta, luzes sobre as fontes na Place de la Concorde, gatos ambulantes, sem-teto, vigilantes, protitutas exaustas, bordéis, clubes de gays e lésbicas, trabalhadores, grafites nas paredes (publicadas com o título de “Language of the walls”), dentre outras.

Em cada gesto que observava, em cada situação que se lhe oferecia, buscava a intensidade do momento.

Na fotografia dos amantes no café, uma situação por demais comum, estava menos interessado na própria situação, a do homem a ponto de beijar a mulher. Brassai viu o movimento e captou o caráter visual do ato espontâneo. Em um instante, decidiu a foto e capturou o que a cena tem de especial.

Amantes em um café de la Place d’Italie, Brassai, 1932

Brassai havia conseguido combinar realidade e ficção em uma única imagem.

A forte presença das pessoas na obra de Brassai não deixa de surpreender. Preenchem cada composição com seu volume físico e revelam a implicação genuina do fotógrafo.
Nenhuma foto foi tomada por mero prazer estético. Suas fotografias sempre supuseram uma confissão de humanidade.
Brassai ultrapassa os elementos cotidianos da existência humana a umas imagens cheias de valor estético e calor humano (Em: Iconos de la Fotografia – El Siglo XX).

Brassai (1899-1984)

Foto de Brassai

Brassai – Biografia

Gyula Halász nasceu em 1899 em Brassó, Transilvânia, Hungria, hoje Brasvo, Romênia.  O pseudônimo Brassai foi tirado do local de nascimento do fotógrafo (Brasvo, Brassó).

Entre 1918-1919 estudou na Academia de Arte em Budapeste e entre 1920-1922 estudou em Berlim, na Akademische Hochschule em Berlin-Charlottenburg. Trabalhou como pintor, escultor e jornalista em Paris (1924-1930), onde manteve contato com Picasso, Dali e Braque, dentre outros. Em 1925 contata Eugène Atget, uma referência para ele. Originalmente tinha aversão à fotografia. Foi em Paris que se apaixonou pela cidade e pela câmera.

Em 1926 conheceu André Kertész e em 1930 começa a fotografar com uma câmera Voigtlander. Entre 1930-1940 trabalhou como fotógrafo independente para as revistas Verve, Minotauro e Harper’s Bazaar. Em 1932 publicou “Paris à Noite” (Paris de nuit, Paris by Night). Também começou a fotografar grafitagem nas paredes de Paris, o que entusiasmou Picasso, Dubuffet e aos artistas informais.

Durante a ocupação da França pela Alemanha nazista foi proibido de exercer a sua profissão. Apesar disso, fotografou esculturas e desenho de Picasso. Escreveu o livro “Conversations avec Picasso”.

A partir de 1945 retoma a sua atividade de fotógrafo, nas revistas Harper’s Bazaar, Lilliput, Picture Post, Labyrinthe e Réalités. Desenhista de balé em Paris, entre 1945-1950. Em 1962 deixa a fotografia.

Faleceu em Beaulieu-sur-Mer, França, em 1984.

Do site http://www.photo-seminars.com/Fame/Brassai.htm fiz uma tradução livre, escrita abaixo, complementando a biobrafia do fotógrafo:

Brassai vê Paris como um tema de infinita grandeza. Suas fotografias de Paris exploraram as pessoas de forma sensível e, com freqüência, de forma bastante dramática, além das avenidas resplandecentes, seus caminhos secretos e intrigantes. Foi com o seu primeiro livro, Paris at Night, hoje um clássico moderno, que Brassai teve sua reputação estabelecida. Alguns dos retratos neste livro estão definidos com nitidez e luz brilhante, enquanto outros capturam o nevoeiro das noites chuvosas. Há os que retratam a vida obscura do mundo dos criminosos.

À medida que Brassai criava mais retratos da vida parisiense, sua fama foi se tornando internacional. Seus retratos sobre o que hoje denominamos grafitagem ou pichação, realizadas nas paredes de prédios em ruínas, foram objeto do seu “one-man show”no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Sobre o assunto ele afirmou: “”the thing that is magnificent about photography is that it can produce images that incite emotion based on the subject matter alone.””

Outras apresentações individuais ocorreram em Biblioth-Que Nationale em Paris, no George Eastman House em Rochester, e no Art Institute em Chicago. Seu trabalho foi incluído em muitas exibições internacionais e publicado em muitas revistas. Ele foi a última pessoa a receber o England’s P. H. Emerson Award do próprio. E é interessante notar que Brassai continuou seu trabalho em outras artes como desenho, poesia, e escultura. Álbuns de seus desenhos e um volume de poesia, Les Pro pos de Marie, foram publicados, e houve uma exposição com 50 esculturas dele em Paris. Junto com outros grandes artistas contemporâneos — Picasso, Moore, Calder, e Noguchi, Brassai recebeu o honroso convite para criar um mural de 23 X 10 pés para o palácio de UNESCO em Paris. Brassai deixou importantes afirmações sobre fotografia, dentre as quais:

We should try, without creasing to tear ourselves constantly by leaving our subjects and even photography itself from time to time, in order that we may come back to them with reawakened zest, with the virginal eye. That is the most precious thing we can possess.”

“A noite sugere, não ensina. A noite nos encontra e nos surpreende por sua estranheza; ela libera em nós as forças que, durante o dia, são dominadas pela razão.“
(Brassaï)


Outras fotos da autoria de Brassai

Foto noturna de Brassai

Homens confidenciando, Brassai

Bijoux, Brassai

Holy Week, Seville, Brassai

Les escaliers de montmartre, 1936, Brassai

Nevoeiro (Foggy), Brassai, 1934.

Bibliografia

Stepan, Peter. 50 Photographers you should know. Prestel, Munich, 2008, pp. 92-93.

Stepan, Peter. Iconos de la Fotografía – El Siglo XX. Electa, 2006, pp. 52-53.

http://www.fotodicas.com/biografias/brassai_fotografo_da_noite.html. Consultado em 19/12/09 às 14:33hs.

http://www.photo-seminars.com/Fame/Brassai.htm. Consultado em 19/12/09 às 14:33hs.

Em busca de adaptação às mudanças no mundo profissional.

Certa vez li um Tweet que refletia a preocupação com a abundância de fotos disponibilizadas gratuitamente na Web, acusando os fotógrafos amadores de ameaçarem o trabalho dos fotógrafos profissionais. Possivelmente, porquê hoje encontramos, com grande facilidade, inúmeras belas imagens, obtidas com equipamento profissional, compartilhadas gratuitamente na WEB.

Comentei que, de forma análoga, os processadores de texto fizeram sumir a datilografia, assim como a imprensa fez sumirem escribas e glosadores. Sinal dos tempos?

É preciso encontrar caminhos.

Fotógrafos profissionais destacam o fato da tríade técnica, conceitual e filosófico serem elementos indissociáveis no aprendizado e no próprio fazer do fotógrafo.

Um fotógrafo profissional temer a multidão de amadores, que hoje têm facilidade de adquirirem ótimas câmeras, capturarem lindas imagens em ótimas fotos e utilizarem softwares de processamento de imagem de ponta, é o mesmo que um sábio temer a multidão que tem acesso a milhões de livros e documentos, atualmente acessíveis para qualquer pessoa na internet. Há espaço para todos, neste mundo. Entretanto, só alguns poucos serão sábios, assim como não tantos serão gênios ou profissionais da fotografia.

O processo criativo é único e alguns chegam muito mais longe do que outros. Talento? Creio que sim, também, embora não só isso. Mas o exercício permanente do ofício abraçado, a busca continuada pelo saber, a reflexão aprofundada sobre essa práxis, a paixão pela sua atividade…

O que faz com que um rosto se destaque em meio à multidão? Talvez o sorriso, o olhar, as suas linhas e curvas, as cores, os movimentos. Também é assim com as flores, e com as pinturas. Quem deixaria de se aperceber da exclusividade dos Girassóis de Van Gogh? E há tantos milhões de girassóis pelos campos. Inclusive, há muitas fotos de girassóis compartilhadas em sites como o Flickr. Da mesma forma com a fotografia e com alguns fotógrafos.

Não é só o domínio da semiótica, da teoria ou da prática diária, que constitui a síntese do saber fotográfico. Embora a prática, associada a outros elementos, tenda a conduzir à perfeição. É o que dizem.

Assim como a mescla de cores, pinceladas e ritmo se juntam ao olhar do pintor e contribuem para a feitura de uma tela, creio que o saber fotográfico ocorre quando o indivíduo constrói uma das possíveis combinações dos diferentes elementos que tornarão distinta a sua fotografia. Neste ponto, a criação não mais passará despercebida em meio à multidão de imagens que povoam o nosso mundo. Talvez seja isso o que denominamos arte.

Os presentes escritos foram motivados por um pedido de idéias feito pelo fotógrafo @Ivan_Alecrim de Recife/PE, por meio do Twitter, em 03/12/09. Tratam do tema “deslocamento”, relativo às artes.

Num tweet Ivan dizia: “Tenho como tarefa de casa fazer uma foto sobre deslocamento. Devo incorporar Duchamp. alguém pode me ajudar?” Pensei em brincar, perguntando se ele queria incorporar o espírito de Duchamp e então fazer uma fotografia. Mas me contive.

Resolvi aproveitar para participar da tarefa do colega. Me pus a pesquisar na web. Detalhe, não sei nada sobre o assunto. Sequer sou artista, embora tenha feito cursos de pintura no SENAC e alguns cursos de fotografia, a qual pratico há anos.  Além de gostar de ler livros sobre pintura, especialmente para apreciar o legado dos grandes mestres. Portanto, o que escrevo é sem qualquer pretensão, que não aquela de ajudar alguém e, de carona, aproveitar a motivação para conhecer um pouco mais sobre as artes.

Nesses tempos de internet, qualquer neófito encontra muita coisa sobre qualquer assunto, e é capaz de aprender algo sobre ele. Encontrei alguns links:

Wikipedia – Marcel Duchamp

Wikipedia Ready-made

Itaucultural.org.br – Banco de mídias

Jblog Idéias

Sibila Relendo Duchamp e outrostransgressores

Bravonline Artes plásticas

Agentecuida – Sophie Calle e a exposicao Cuide de você

Pelo que li, concluo que a idéia de deslocamento, em arte, está ligada a crítica, inconformismo, transgressão, rebeldia, polêmica, ruptura, clássico vs. popular, cultura e contracultura, aclamação vs. desprezo, ideologia e anarquismo. Ou, “anartismo”. Também tem a ver com histórias como “A roupa nova do rei” ou, ainda, com resistência e libertação.


De uma das referências citadas, transcrevo partes de uma entrevista com Affonso Romano de Sant’Anna, poeta e autor de O enigma vazio (Rocco):

“(…) Thierry de Duve disse que a arte contemporânea fez o estatuto da arte migrar do “isto é belo” para o “isto é arte. Podemos (ir) além e diz(er) que esse estatuto mudou para “isto é…? …?”, no sentido em que a arte deixou de ser uma atribuição de algo contido nela mesma (a beleza) e passou a ser um enigma (…)”.

O poeta é crítico e afirma que “(…) Muito do que se produz por aí é um simples “isto”, está no espaço da “in-significância” (…)” e diz que não compara da Vinci a Duchamp. Para ele, “existe arte de vários niveis: sofisticada, média, medíocre” mas, completa dizendo que “nem toda obra de arte é universal”. Ou seja, algumas obras podem dizer muito a uns e nada para outros. Questão de gosto? Em muitos casos, para entender, não basta ler. Para apreciar, não basta olhar. Tem que ter bagagem, segundo a leitura que fiz.

Lembrei então de uma aula que tive com Ivan Alecrim, no Segundo semestre de 2009, na qual ele nos mostrou uma foto sua que concorria a um prêmio nacional de fotojornalismo. Era sobre o racionamento de água em Caruaru/PE, salvo engano. Apesar de bonita, não entendi quais atributos a tornavam especial para um concurso nacional de fotografia. Para meus olhos leigos, não havia como enxergar que aquela seria, de fato, a fotografia premiada pela Consigo naquele concurso de 2009. É possível que eu escolhesse uma macrofotografia de uma flor. Era arte e eu não sabia exatamente o motivo. Paciência, eu chego lá. Porém, eu tenho um consolo, pois não estou só neste mundo: a irmã de Duchamp, encarregada de cuidar do seu ateliê em Paris, jogou fora algumas de suas mais importantes criações, pois achava que eram objetos velhos e sem utilidade.

A modernocontemporainedade, no entanto, estabeleceu que qualquer coisa que não se entende e que nos choca é genialAffonso Romano de Sant’Anna

O poeta continua: “(…) E quanto à arte conceitual, vamos devagar. Já vi algumas excelentes. Mas pelo simples fato de serem conceituais não são boas, o critico deve ter aparelhos teóricos para analisar os conceitos”. E critica Duchamp: “(…) depois dele a vanguarda deixou de ser outsider e passou a ser establishment. (…) Endeusando Duchamp, as pessoas o estão colocando na categoria do “sublime”, quando era tecnicamente um “cínico”. Se dizia “anartista”, mas vendia quadros de pintores e no fim da vida aceitou entrar para a Academia de Artes dos Estados Unidos. É como se um ateu que tivesse a vida inteira negado a vida eterna, no fim vai para o beatitude dos santos, dizendo, “desculpem se infernizei a vida de vocês, estou indo para os céus”.

Affonso Sant’Anna apresenta então uma idéia sobre o deslocamento: a história da arte inclui períodos de desvios em relação à norma. “Mas há uns 100 anos, ao invés de desvio, houve algo que lingüisticamente se chama “deslocamento”, uma substituição total do sistema por coisa nenhuma. Qualquer coisa, qualquer “insignificância” passou a querer ser arte. Imagine se o ministro das finanças decretasse que não existe mais o “padrão ouro” ou “padrão dólar”, que qualquer pedra é ouro. (…)”

Vem da Wikipedia o texto a seguir:

“O ready made nomeia a principal estratégia de fazer artístico do artista Marcel Duchamp. Essa estratégia refere-se ao uso de objetos industrializados no âmbito da arte, desprezando noções comuns à arte histórica como estilo ou manufatura do objeto de arte, e referindo sua produção primariamente à idéia. Se se considera que a característica essencial do Dadaísmo é a atitude antiarte, Duchamp será o dadaísta por excelência. (…) O ready-made é uma manifestação ainda mais radical da intenção de Marcel Duchamp de romper com a artesania da operação artística, uma vez que se trata de apropriar-se de algo que já está feito: escolhe produtos industriais, realizados com finalidade prática e não artística (urinol de louça, pá, roda de bicicleta), e os eleva à categoria de obra de arte.”

O texto da Wikipedia explica:

“É o caso de “Fonte”, de 1917. Apresentada no Salão da Sociedade Novaiorquina de artistas independentes, constitui-se a partir de um urinol invertido. A operação que o caracteriza é o deslocamento de uma situação não artística para o contexto de arte. Tal operação é marcada por sua apresentação como escultura e assinatura. À inversão física do objeto corresponde a inversão de seu sentido, que se espelha no corpo do espectador. Do mesmo modo, “Porta-garrafas”(1914, readymade) e “Roda de bicicleta” (1913, readymade assistido) tiram partido de um deslocamento e manipulação do objeto para tornar o sentido de sua aparição crítico. (…) Como em outros casos, está implícito o típico propósito dadaísta de chocar o espectador (o artista, o crítico, o amador de arte), choque que caracteriza a atitude das vanguardas (que necessitam desse choque para reformular o conceito de arte) e persiste frequentemente na arte contemporânea. (…) o readymade nos faz ver que o objeto deixa de ser arte no momento em que deixa de propor, para si mesmo, novas interpretações – no momento em que deixa de fazer um novo sentido.”

Num dos textos referenciados, de autoria de Daniela Bousso, deslocamento é tratado no contexto de evolução da própria história da visualidade. Deslocamento da arte das cavernas para os afrescos, para a pintura de cavaletes, depois para o readymade, modificando a utilização da linguagem nas artes visuais. Veio o video, a holografia e a infografia da cena artística. E quantas novas mídias virão?

Daniela Bousso diz que deslocamento revela um desejo de realocação, a necessidade de estabelecer novas categorias e remapear espaços não imaginados. Em seu texto, apresenta três blocos de expressão que constituem objeto da mostra em questão: Estranhamento, a Superfície e Imagem/Tempo. Uma pesquisa sobre os artistas citados na mostra certamente poderá ajudar a compreender e ilustrar a temática deslocamento.

Em fotografia, creio que o tema se aplica ao que está acontecendo da fotografia analógica para digital, do darkroom para lightroom.

Certamente há muito o que falar e aprender sobre o tema. Mas nosso objetivo é muito mais modesto. Apenas encontrar sugestões e caminhos para o trabalho de fotografia do nosso colega Ivan. Acrescentaria apenas um breve comentário sobre a exposição CUIDE de VOCÊ, de Sophie Calle, a artista francesa (“Personalidade polêmica, que está mudando o panorama da arte”), que acredito ajustar-se ao conceito de deslocamento. Visitei a mesma em Salvador/BA, agora em novembro. São fotos e cartas de diversas mulheres interpretando, cada uma ao seu modo, um e-mail do ex-namorado da artista dando o fora.

E para concluir, retomo a entrevista com Affonso Sant’Anna, parcialmente transcrita anteriormente. Ela terminou com a perguta:

O que faz com que um objeto seja considerado uma obra de arte?

E o crítico poeta responde:

Isto não é uma pergunta, é uma armadilha.

Vale uma lida do artigo.

Pois é meu caro Ivan, fui seu aluno. E continuo aprendendo por sua causa. Espero ter ajudado, de alguma forma. E, a menos que eu não tenha entendido bulufas sobre “deslocamento”, recomendo: põe-te a clicar, começa já a polemizar, mostra que a fotografia que farás também é arte. Agora é com você: ousarás responder o que é arte?