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Apresento a seguir um link sobre reportagem de uma série jornalística sobre lixo.

Não conheço detalhes do projeto nem do sucesso da iniciativa. Porém, basta para nos lembrar que, qualquer que seja o projeto de obras, é possível dotá-lo de múltiplos propósitos, incluindo a preservação do meio ambiente e a sustentabilidade.

Certamente que no Brasil, onde regiões como Norte e Nordeste sequer possuem maioria de habitantes servidos por sistema de esgotamento sanitário, e padecem de elevadas taxas de morbidade e mortalidade infantil por doenças de veiculação hídrica, isto ainda está muito longe de acontecer. Mas não custa sonhar.

Quem sabe, um dia, despertamos para a importância de identificar e selecionar corretamente o que é prioridade. Especialmente porque ainda temos muita pobreza, o que torna a satisfação das necessidades básicas e essenciais infinitamente mais importante do que obras voluptuárias ou do que a satisfação de vaidades de nossos governantes, representantes políticos e até mesmo de muitos brasileiros.

A solução de Barcelona evita que o lixo se espalhe pela cidade, enquanto aguarda ser recolhido ou durante o transporte (como ocorre em terras tupiniquins), retira caminhões de circulação, com menor poluição do ar e sonora. De quebra, deve reduzir os veículos em circulação, melhorando o trânsito.

Assista ao vídeo:

Veja mais sobre líxo e reciclagem:

Por que reciclar pilhas e baterias? Links de PEV, coletores, postos de reciclagem

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Edição Especial sobre Sustentabilidade da Revista Veja

Capa da edição especial Sustentabilidade da revista Veja

A edição especial sobre sustentabilidade da Revista Veja, de dezembro de 2010, traz uma matéria que começa com a seguinte pergunta:

O Brasil pode crescer em ritmo chinês sem agredir o ambiente?

E a resposta, como poderiam esperar os mais céticos com a revista Veja, é:

SIM!

Vejamos os argumentos da Veja (e depois, uma oposição aos mesmos):

1) Agronegócio: o Brasil é campeão em produtividade e exportação. Área plantada e produção apresentam crescimento histórico. Ainda há cerca de 10% de terras ociosas para pecuária. No ritmo de crescimento do agronegócio, ou aumenta a produtividade ou haverá invasão da Floresta Amazônica.

O país dispõe de tecnologia para tal, acontece que é mais barato desmatar.

2) Energia: cerca de 74% da nossa energia é produzida por hidrelétricas. Nos próximos 1o anos a demanda deve crescer mais de 50%. Deve aumentar a participação dos combustíveis fósseis na matriz energética.

Nos próximos seis anos, seriam necessários investimentos de R$2 bilhões de reais, parte disto deveria ser investido em energia eólica. Do contrário, será necessário maior uso de energia térmica e nuclear.

3) Amazônia: estaria próxima do seu limite. Um aumento de 2% no desmatamento implicaria em sua transformação em savana, um ponto sem retorno. Um desastre ambiental, péssimo para a agricultura e produção de energia (faltou dizer que será péssimo para as pessoas e seres vivos em geral).

Não há qualquer registro de país que tenha sido capaz de conciliar preservação ambiental e expansão agrícola.

A solução seria adotar o novo Código Florestal, “mais realista que o anterior”. Preconiza as práticas de indenização a proprietários de terras para preservação da floresta, como na Costa Rica.

4) Saneamento: menos de 60% dos domicílios brasileiros têm saneamento. Mais de 8 bilhões de litros de esgoto são despejados nas nossas fontes de água. Ressalta que a poluição cresce com o aumento da industrialização e consumo. Menciona a China, com 50% de rios insalubres e possuidora de 16 cidades dentre as 20 mais poluídas do mundo.

Seria necessário investir 55 bilhões de reais por ano (isto mesmo! R$55bi/ano) nos próximos 10 anos.

5) Transportes: as rodovias e o diesel respondem por 2/3 dos transportes de carga. Nas cidades o modelo de transporte é o ônibus e automóvel particular (também combustíveis fósseis). Com maior produção, haverá mais transporte. Em péssimas estradas. Nas cidades sem metrô o trânsito tende a piorar.

Para gargalos da infraestrutura viária seriam necessários R$ 22 bilhões, especialmente para ferrovias em áreas produtoras.

6) Portos: o Brasil, um dos maiores exportadores de alimentos, tem infraestrutura portuária pífia e transporte 4x mais lento que portos similares. Isto gera grandes prejuízos e desperdício de alimentos. Ao ritmo de crescimento de exportações atual, seria necessário duplicar os portos em 8 anos.

A solução seria triplicar (isso mesmo, TRIPLICAR) os investimentos nesta infraestrutura.

7) Demografia: a fecundidade decresceu, e hoje é de 1,8 filhos por mulher (ao menos uma notícia alentadora). Crescimento econômico implica em aumento de emprego, renda e, portanto de consumo. Entretanto, para o ambiente, mais importante que o tamanho da população é o padrão de consumo (observe que o impacto ambiental das populações da América do Norte e Europa são significativamente maiores que as demais populações no mundo).

Seriam necessárias inovações na indústria e agropecuária para aumentar produtividade sem causar danos ambientais.

Uma leitura atenta dos argumentos, apresentados na própria matéria, deveria levar a uma conclusão oposta à resposta SIM. Não obstante serem plausíveis as hipóteses de soluções tecnológicas. Mas há muito mais que isso a considerar.

Sendo mais otimista e menos realista, o leitor concluiria por uma grande interrogação. Mas podemos “engrossar o caldo”, com alguns simples questionamentos:

1) Agronegócio e Amazônia:

– Uma sociedade apática vai cobrar as mudanças?

– O que faria os agricultores adotarem tecnologias mais caras, quando é mais barato desmatar? Novas leis? Legislação feita por nossos parlamentares corruptos, demagógicos e fisiológicos? O Congresso atual aprovaria o pagamento a proprietários de terras para preservarem florestas? Um valor hipoteticamente aprovado seria suficiente para competir com os lucros da atividade criminosa?

– Pouquíssimos fiscais seriam suficientes para zelar pelo cumprimento das leis em um território gigante? Ainda mais com a facilidade de corrupção fiscal, historicamente presente em nossas terras tupiniquins?

– E o orçamento para tudo isso? Lembremos que até a educação teve cortes orçamentários para 2011!

2) Energia, Saneamento, Transportes e Portos:

– De onde virão os bilhões e bilhões necessários para este magnífico Novo Milagre Econômico?

– Ainda que haja recursos – digamos que de Parcerias Público Privadas, como esperar tais decisões de investimento em infraestrutura produtiva, num país que optou pelos seguintes investimentos:

a) Copa do Mundo de 2014 (“investimentos” estimados em R$ 5 bi), só que estimativas realista são muito superiores);

b) Olimpíadas de 2016 (Rio se prepara para “investir” 25,9 Bi); e

c) Trem Bala? Trem Bala e Crescimento Sustentável?

E olhem que estamos comprometidos com tais investimentos voluptuários “até o pescoço” nos próximos anos. Em que medida estes investimentos ajudam em sustentabilidade ambiental ou em que se prestam à solução dos problemas na infraestrutura ferroviária, portuária, de transporte rodoviário e urbano, do saneamento, além da geração de energia limpa?

Charge de J.Bosco, Trem bala Rio - São Paulo

Charge de J.Bosco, Trem bala Rio - São Paulo, do link http://jboscocartuns.blogspot.com/

No caso do trem bala, estima-se:

– O gasto de R$ 33 bi com o trem bala seria suficiente para construir 300km de metrô, o que é cinco vezes a malha de São Paulo;

Este mesmo gasto seria suficiente para construir 11 mil km de ferrovias comuns (permitiria trocar grande parte do transporte em péssimas rodovias e queimando diesel por transporte em ferrovias novinhas, reduzindo, ainda, o grande desperdício de alimentos perdidos no transporte);

– Novamente, as previsões são muito otimistas. Outros países gastaram muito mais que o previsto no trem bala. E nossa topografia é desvantajosa em relação a estes, o que tende a aumentar ainda mais os gastos reais. Há quem acredite que o gasto com o trem bala vá dobrar. Isto significará maiores tarifas e/ou maiores incentivos fiscais, abrindo mão de mais arrecadação de impostos;

– Ainda, pode-se argumentar que este investimento é privado. Mas não esqueçamos que o Estado abdicará de anos de arrecadação de impostos, o que equivale a gastos. Sem falar que este serviço, com benefício fiscal, concorrerá com outros serviços de transporte, como ônibus e ponte aérea, com impacto negativo na arrecadação oriundas destas outras fontes;

– Investir em saneamento? Os fatos estão aí: milhões de pessoas sem saneamento, milhares de mortes, especialmente mortalidade infantil, por doenças ligadas à falta de saneamento. Qual foi a opção política? Copa, Olimpíadas e Trem Bala! O povo e a natureza podem esperar…

Além do mais, todos os anos milhões são gastos em saneamento, grande parte “enterrados” ou que escoaram pelos ralos da corrupção. E cadê a capacidade de realização e a efetividade dos gastos, nesta nossa cultura de desvios de recursos públicos, de ineficiência e de ausência de práticas de cidadania, na cobrança de adequada destinação dos recursos públicos?

3) Demografia e hábitos de consumo:

– Embora o crescimento das taxas de fecundidade estejam em declínio, eles ainda são positivos. Ou seja, nossa população ainda está crescendo. Quanto ao desmatamento decorrente da expansão das cidades onde vivemos, e do aumento do consumo, que tal apresentar projeções baseadas no comportamento recente, para saber se aumentará 2%, tornando a Amazônia uma Savana?;

– Nosso PIB está crescendo. Logo, estamos enriquecendo. Se seguirmos o mesmo caminho que os nossos irmãos ocidentais da America do Norte e Europa seguiram historicamente, e continuam seguindo, seremos cada vez mais insustentáveis.

– E nada indica que os debates sobre sustentabilidade e preservação ambiental vão conquistar o gosto da preferência popular. Basta ver os assuntos euforicamente disputados nas redes sociais!

Certamente ainda seriam pertinentes muitos outros argumentos, mas estes parecem bastar para ressalvar a leitura da matéria da Veja:

Os dados e argumentos apresentados são bons e verossímeis. Mas as conclusões… estas não são condizentes com a própria argumentação apresentada na matéria. Salvo se o leitor estiver movido por uma grande dose de otimismo e credulidade quanto ao bom comportamento da humanidade.

O que mais chama a atenção é a afirmação de que uma das chaves para a requerida sustentabilidade seriam:

“Inovação tecnológica só existe se há aumento do consumo, aumento da produção e da riqueza de um país.”

Segundo a matéria, seria um pensamento afim da teoria da curva ambiental de Kuznets (Prêmio Nobel de 1971). Em resumo: nas fases iniciais da industrialização ocorre um aumento da poluição e dos impactos ambientais, que depois se estabilizam e, por fim, decrescem, com o aumento do nível de renda e educação da população. Seria um padrão de “U” invertido.

A suposta adequação da teoria de Kuznets à idéia da sustentabilidade do crescimento chinês no Brasil (ou em qualquer outro país), em harmonia com a preservação ambiental, não se sustenta, devido a simples constatações, presentes na própria edição especial da Veja:

“A Europa detinha 7% das florestas do planeta e hoje conta com mísero 0,1%. Nos Estados Unidos, quase não há mais terras disponíveis para produzir alimentos.”

“Com as pegadas ecológicas da Oceania (5,4 gha), e dos Estados Unidos e Canadá (7,9 gha) precisaríamos parar em 2,5 bilhões e 1,7 bilhão de habitantes, respectivamente.”

(detalhe, hoje já temos 7 bihões de habitantes em nosso planeta, logo, estes países, que são os mais ricos e mais educados em todo o mundo, são os mais insustentáveis de todos! E quando os demais enriquecerem e forem educados, já não terão mais qualquer floresta ou ambiente natural.)

Ou seja, os focos do problema são dois, especialmente:

1) A quantidade de pessoas no planeta; e

2) O modelo de produção e consumo baseado no pressuposto do crescimento continuado e “laissez faire

(nos países ricos, é mais comum as pessoas ingerirem calorias além do necessário, para depois queimarem o excesso na academia ou pagando uma lipoaspiração. Ou consumirem quaisquer outras coisas desnecessárias. Já os pobres…).

A propósito, veja os links abaixo sobre um milionário australiano que ofereceu um prêmio de $1m para alguém que afronte o crescimento populacional global:

Bilionário oferece R$ 1,6 milhão para quem salvar mundo do crescimento

Dick Smith Population

Mas nem tudo está perdido. E espero que decidamos por um caminho que não leve ao nosso fim. De qualquer modo, a natureza deve sobreviver à espécie humana, embora não necessariamente como já foi um dia.

Talvez, depois de muito sofrimento de milhões de pessoas e de grandes catástrofes ambientais, cada vez mais inesperadas e surpreendentes, a população mundial – especialmente a que deveria ter mais discernimento – acorde e reveja os seus conceitos sobre o modelo de produção baseado em contínuo crescimento econômico, em consumo desenfreado, no desprezo pelas outras espécies de seres vivos e na exploração insaciável dos recursos naturais do nosso planeta.

São estas as conclusões que posso chegar com a leitura que faço do mundo. Pessimista? Creio que não, do contrário não estaria aqui discutindo o assunto, pois seria puro sadismo. Mas alguém poderia me mostrar uma leitura diferente?

De qualquer modo, façamos a nossa parte e tenhamos fé!

A matéria da Revista Veja é assinada por Gabriela Carelli. Os comentários são do autor do blog.

Sobre uma edição 2009 da Revista Veja, também sobre sustentabilidade, leia:

Discurso da Sustentabilidade