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Uma sucessão de desastres naturais recorrentes tem afligido a humanidade, inclusive nós brasileiros, mas parece que não estamos vendo claramente o que está ocorrendo com nossos semelhantes, nem percebendo com lucidez as conseqüências destes eventos importantes, que têm o potencial de mudar drasticamente as nossas próprias vidas, inclusive para muito pior, mesmo contra a nossa vontade e esforços, caso sejamos nós as vítimas. Afinal, somos muito pequenos para enfrentá-los sozinhos, e também coletivamente, se o fizermos de forma desorganizada.

Quando não somos vítimas, não sentimos tão facilmente o drama dos desabrigados. Há o ditado: o que os olhos não vêm, o coração não sente… Será? Vejamos o que os países em todo o mundo têm sentido com as enchentes, inundações, deslizamentos, furacões, terremotos, tsunamis, etc.

O terremoto seguido de tsunami no Japão ainda não virou lembrança, pois o drama continua naquele país, que luta para sobreviver à tragédia humanitária, econômica e agora os seus efeitos radioativos. Esta última uma contribuição da arrogante crença no controle da humanidade sobre as suas tecnologias supostamente mantida sob rédeas.

Mas vejamos o que também acontece mais perto de nós e dos nossos olhos, muito embora passe despercebido por quase todo mundo nestas bandas:

– Durante os últimos 30 anos há os seguintes registros decorrentes de desastres “naturais” para os países da América Latina e do Caribe:

a) Anualmente 5.000 vidas foram ceifadas;

b) As perdas médias anuais têm sido de US$3.200 milhões de dólares: destruição de habitações, prédios públicos, plantações e empreendimentos; desemprego; perda de arrecadação…;

– As perdas tendem a aumentar devido a:

a) Mudanças climáticas;

b) Processos de desenvolvimento que levam à destruição ambiental em áreas vulneráveis;

c) Rápido crescimento de áreas propensas a desastres (ocupações irregulares de morros e margens de rios e córregos, p.ex.).

– Os desastres naturais ocasionam:

a) Impacto negativo na qualidade de vida urbana e rural;

b) Reduzem o capital social e produtivo de um país;

c) Tendem a afetar mais acentuadamente os segmentos mais pobres da população;

d) Podem produzir impacto de longo prazo sobre o desenvolvimento dos países, pois geram impactos inesperados nas contas fiscais e também nas inversões privadas (vejamos o exemplo do Japão, após o terremoto, seguido de tsunami e acidente nuclear… Fábricas pararam e houve desabastecimento de produtos de alta tecnologia);

– É possível caracterizar o risco;

– É possível a gestão do risco;

– Os indicadores de risco permitem analisar a evolução da situação, comparar um país ou local em diferentes épocas;

– Os indicadores podem ser usados em âmbito local;

– Existem níveis de risco de desastres ambientais significativos nos países analisados da América Latina;

Aparentemente tais riscos não foram até então percebidos em sua verdadeira dimensão pelas pessoas, pelos tomadores de decisão, incluindo os governantes, e pela sociedade em geral;

– Um enfoque proativo de redução do risco, se adotado, pode gerar ganhos econômicos e sociais importantes;

– Podem ser adotadas medidas para reduzir as vulnerabilidades frente às ameaças naturais, as quais podem ser integradas aos programas de desenvolvimento e de reconstrução pós-desastre;

A defesa civil poderia usar ferramenta análoga àquela utilizada na saúde, baseada na mensuração e uso de indicadores de riscos. É aplicada na gestão de programas de saúde pública, inclusive no Brasil:

O primeiro passo é monitorar, mensurar e registrar a ocorrência de doenças na população em geral e nas localidades e pessoas em particular (vigilância). São elaborados planos municipais e estaduais de saúde, para fazer frente aos problemas diagnosticados, os quais guiarão a distribuição e gestão dos recursos públicos e a execução de diferentes programas de saúde, a exemplo do programa de saúde da família, agentes comunitários de saúde, vigilância ambiental, emergências SAMU, etc.

O referido sistema se retroalimenta e é continuamente aperfeiçoado, reduzindo os riscos para a população e favorecendo a solução dos problemas.

No caso dos desastres naturais, não basta desenvolver, registrar, analisar e monitorar indicadores de risco em defesa civil, instituir conselhos de defesa civil, realizar conferências de defesa civil, etc.

Isso porque o assunto requer ação muito bem planejada, coordenada e de ampla cooperação entre esferas governamentais e entre setores de uma mesma esfera governamental, incluindo meio ambiente, saúde, ação social, educação, agricultura e pecuária, reforma agrária, trabalho e emprego, Ministérios Públicos, instituições de pesquisa, etc., além da participação da sociedade civil, organizações não governamentais – incluindo todas aquelas que fornecem voluntários nos desastres naturais e muitos outros.

Só uma abordagem holística e integrada de problema tão complexo pode ser promissora. Sem um correto reconhecimento e definição dos problemas e de suas causas, tudo o mais que fizermos a partir daí tenderá a ser pouco efetivo ou até mesmo inócuo.

Então, lembremos do velho ditado: é melhor prevenir, do que remediar. Mas…

O antagonismo entre cura e prevenção dos males acompanha a humanidade há muito. É do tempo de Hipócrates o registro do antagonismo entre as duas filhas do deus Asclépio: Panacéia e Higéia.

“Panacéia preconizava a medicina curativa, prática terapêutica baseada em intervenções sobre indivíduos doentes, mediante manobras físicas, encantamentos, preces e uso de medicamentos, enquanto …

Higéia, defendia a saúde como resultante da harmonia entre os homens e ambientes, e buscava promovê-la por meio de ações preventivas”

(Fonte: http://www.culturabrasil.com.br/programas/radarcultura/limbo/conhecam-a-arte-de-gustav-klimt-na-pintura-de-higeia-reconhecam-a-sabedoria-higeiana).

Mas, retornando aos indicadores de riscos de desastres:

Podemos concluir, a partir dos estudos do BID e do Banco Asiático, dos quais são originárias as informações sobre indicadores e desastres ambientais no mundo, aqui apresentadas, e da própria observação dos acontecimentos, que

é possível monitorar e mensurar os riscos, os quais devem ser percebidos e reconhecidos como um problema socioeconômico e ambiental

(eu diria que isso é indispensável).

Conhecido o risco, é possível adotar medidas preventivas e práticas adequadas de planejamento e gestão, tanto públicas quanto privadas. Sem prejuízo da eventual adoção de medidas corretivas.

Tornamo-nos assim, discípulos de Higéia.

Prevenindo, minimizam-se os impactos socioeconômicos dos desastres, inclusive aqueles decorrentes das mudanças climáticas, tanto quanto possível com as medidas que estiverem ao nosso alcance.

Também, é bom lembrar que se trata de um caminho difícil, longo e que pode demorar décadas, o mesmo tempo que dedicamos à depredação do meio ambiente. É a velha história da “porta estreita”. Não são comuns as soluções fáceis para problemas difíceis e complexos.

Porém, em troca, ganharemos em milhares de vidas salvas anualmente e também na disponibilidade de valiosos recursos que, poupados do uso corretivo ou curativo dos efeitos dos desastres, podem ser utilizados nos processos de desenvolvimento e promoção do bem-estar social.

Evitamos, assim, a previsível e eterna reconstrução, à semelhança do mito de Sísifo, “condenado a repetir sempre a mesma tarefa de empurrar uma pedra de uma montanha até o topo, só para vê-la rolar para baixo novamente

O outro caminho é nos tornarmos seguidores de Panacéia. Aliás, esta tem sido a preferência da humanidade ao longo da história, e ainda parece ser a escolha preferida da maioria, até hoje.

Mas, atenção! Veja-se a situação das cidades e populações pernambucanas em estado de calamidade pública e situação de emergência, há menos de dois anos desde a última enchente de 2010:

Em 2011 as chuvas destruíram, novamente, aquilo que fora destruído também em 2010 (possivelmente o que também foi destruído em 2005, em 2000, e sabe-se lá em quantas outras enchentes do passado):

“Folha de Pernambuco Digital. Domingo, 15 de maio de 2011. Com as novas chuvas, a sensação de trabalho dobrado. O que se viu nas últimas semanas foi quase um espelho do que ocorreu no ano passado. Novamente, escolas paralisaram suas atividades, cidades perderam acessos, casas foram atingidas e as famílias ficaram desabrigadas. Sem previsão ou qualquer alerta, milhares de famílias foram pegas de surpresa. Assim como o Governo do Estado. Para quem não viveu mudanças, a situação foi ainda pior e alimentou o medo dos próximos invernos. (…) Com as obras iniciadas no final de junho de 2010, os municípios tiveram parte dos acessos restabelecidos através de intervenções emergenciais de recuperação de pontes, passagens molhadas e rodovias. Mas, após as chuvas de abril e maio deste ano, parte do que foi reconstruído chegou a ser novamente destruído.”

(Chuvas: trabalho dobrado na Mata Sul – http://www.folhape.com.br/index.php/noticias-geral/637606?task=view).

Em Barreiros e Palmares, por exemplo, muitas pontes ainda continuavam destruídas, há mais de um ano das enchentes de 2010. Passados mais de 12 meses, havia lugares em que a travessia das corredeiras dos rios era feita em pequenas e precárias embarcações, trazendo risco à segurança e à vida das pessoas. Sem falar que a vida de todos fica mais difícil. Simples tarefas consomem muito mais tempo do que o comum, a exemplo de ir e voltar da escola ou se deslocar até uma unidade de saúde, pois as estradas vicinais e pontes sofreram com o desastre ambiental.

Sem um enfoque preventivo, os desastres naturais, que aumentam cada vez mais em decorrência da ação negativa da humanidade sobre o meio ambiente, guardando estreita correlação com o consumo desenfreado – que é estimulado para termos um “desenvolvimento com crescimento econômico continuado”, tendem a ser um ralo gigante, a sugar eternamente os nossos recursos limitados.

Não é fácil a situação das vítimas, tampouco do Estado, cujos governantes  precisam correr para estancar os danos. Mas, nestes novos tempos, nem Panacéia pode dar jeito nesta situação.

Precisamos desenvolver uma consciência coletiva, de que nossos comportamentos condicionam em grande parte a destruição ambiental e aumentam os riscos de desastres daí decorrentes:

– Destruir as florestas e a mata ciliar aumenta o volume e a velocidade das águas nos rios e agravam as enxurradas e enchentes;

– Construir às margens dos rios e córregos provoca danos ambientais e expõe as pessoas ao risco das inundações e enxurradas;

– Extrair areia dos rios altera a dinâmica das águas e provoca assoreamento dos rios e barragens, agravando as enchentes e os danos por elas provocados nas cidades.

Estamos diante do exercício do nosso livre arbítrio. Podemos:

a) Mudar a história, adotando novos comportamentos no tocante ao consumo, ao convívio com o meio ambiente, à ocupação e uso do solo e mudando o atual modelo de desenvolvimento econômico, típico do capitalismo, que é evidentemente insustentável e já destruiu e comprometeu seriamente parcela significativa do meio ambiente planetário;

b) Ou aceitar a profecia autorrealizável de uma nova Ilha de Páscoa, agora em escala global (Saiba mais em: http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/atitude/conteudo_255142.shtml).

Que caminho você pretende seguir?

A insustentável lerdeza do trânsito metropolitano de Recife e capitais: perdemos bens preciosos como tempo em família, lazer, exercícios e saúde, em troca do uso diário do automóvel, trânsito caótico, atropelamentos e acidentes envolvendo caminhões, ônibus, carros, motocicletas, bicicletas e pedestres, além de poluição, stress e doenças do coração…

Publicado: 08/05/2011 em Cidadania, Meio Ambiente, Saúde, Sustentabilidade
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É mole ou quer mais?

Muita gente pensa que abdicar do (suposto) conforto do automóvel e encantos do consumo é o mesmo que voltar à barbárie. Será?

Mas o que caracteriza a barbárie?

– Seriam os milhares de pedestres e ciclistas atropelados, mortos ou lesados por carros e motos que, sendo maiores e mais fortes, se consideram os donos das ruas?
– Seriam as mortes e lesões corporais em milhares de motociclistas, atropelados por motoristas ensandecidos?
– Seriam as agressões recíprocas entre condutores estressados, que perderam o bom senso, a cortesia, a solidariedade e os traços de conduta que caracterizam os povos civilizados, partindo para a competição destruidora e agressões verbais e físicas, por vezes cometendo homicídios?
– Seria o barulho ensurdecedor de buzinas acionadas por motoristas, que não suportam mais ficarem presos no interior dos seus carros, em cruzamentos trancados por veículos que tentam atravessar ao mesmo tempo as vias, em todos os sentidos?
– Seriam os assaltos, por vezes latrocínios, ocorridos em arrastões que ocorrem quando o trânsito está parado?
– Seriam as toneladas diárias de emissão de carbono que saem dos escapamentos de motos, carros, ônibus e caminhões, provocando o aquecimento global, que provoca chuvas, enchentes, enxurradas e furacões, tirando vidas e deixando as vidas restantes um inferno?

O próprio direito de ir e vir, ou a liberdade de escolha de como podemos nos deslocar nas cidades, estão seriamente lesados:

a) Não podemos nos deslocar de ônibus, sem perder um tempo enorme dos nossos dias, pois nossos transportes coletivos estão longe de atenderem às necessidades da população. Sem falar nos riscos constantes de assaltos em certas linhas e horários;
b) Não podemos nos deslocar de moto, sem participar das estatísticas de lesões corporais ou de mortalidade, com ou sem seqüelas, dada a prepotência, arrogância e insanidade de inúmeros condutores de automóveis, ônibus e caminhões;
c) Não podemos nos deslocar de bicicleta, pelos mesmos motivos que afetam os motoqueiros, sendo que também os motoqueiros atropelam bicicletas;
d) Não podemos nos deslocar caminhando, sem correr um alto risco de atropelamento, por qualquer que seja o tipo de veículo, além do perigo de assaltos.

Pois bem: não estamos falando de um risco inerente à vida normal, ao qual todos estamos sujeitos no dia-a-dia. Nossos riscos, no Brasil de hoje, são muito maiores do que os riscos equivalentes em países verdadeiramente civilizados. Basta pesquisar na web nossas taxas de morbidade e mortalidade por causas externas.

Quantas vidas, quanto conforto, quanto bem-estar, quanta saúde, quantos bilhões ou trilhões de reais estamos perdendo com toda essa situação? Será que ninguém percebe que, isso sim, é barbárie?

Francamente, a vida que hoje vejo em Recife, que não deve ser diferente do Rio e São Paulo (cidades onde já morei), nem de outras grandes capitais do Brasil, quem sabe do mundo afora, não é civilização, mais parece barbárie. E muitas vezes não adianta se mudar: há cerca de 10 a 15 anos muitos moradores da Região Sudeste se dirigiram para as águas mornas do litoral nordestino, com ânimo de fixar residência, para fugir do caos urbano. Dependendo da cidade para onde foram, estão revivendo hoje as suas vidas antigas, ou não estão longe de revivê-las.

Com doses diárias e pequenas, fomos nos acostumando com isso: já cheguei a gastar 7 minutos de casa para o trabalho, de carro, em meses de férias escolares, percorrendo um trecho de 3,5 quilômetros. Em média, gastava 10 a 15 minutos, normalmente. Depois, as coisas começaram a mudar: 20 minutos em média, pois cada vez existem mais semáforos e mais veículos. Não tardou, o tempo mais comum passou a ser de 25 ou 30 minutos. Hoje, não raro, gasto 40, 50 ou 60 minutos para fazer o mesmo percurso, de carro. Isso é conforto e comodidade? Na verdade, virou insanidade.

Precisamos fazer algo e não simplesmente esperar que as nossas autoridades “iluminadas” tomem medidas para debelar as causas dos problemas e não apenas os seus efeitos.

O que podemos fazer?

Eu, você e nós:

1) Para quem tem capacidade física suficiente e mora não muito longe do trabalho ou da escola, que tal ir a pé? Gasto 35 minutos para percorrer 3,5 quilômetros até o trabalho, caminhando normalmente. Dependendo do dia, chego mais rápido do que de carro. Chego suado, é verdade, mas estamos nos trópicos. Nada que um kit jeans, camisa pólo, tênis, meias confortáveis e toalha não resolvam. Nos tempos de chuva, precisamos de um pouco mais: sapatos ou botas adequados, guarda-chuvas, capas ou jaquetas impermeáveis;
2) Que tal caminhar até a escola, sempre que possível, ou avaliar a viabilidade de usar transporte escolar para os nossos filhos?
3) Experimentar o transporte solidário: não raro, abrindo mão de um pouco de comodidade, podemos conciliar horários e trajetos de veículo com familiares, amigos e colegas de trabalho;
4) Exigir o direito de compartilhar o prejuízo do tempo perdido no trânsito com os empregadores. O problema é de todos e todos são responsáveis pelas soluções. Além disso, boa parte deste problema é causado pela omissão do Poder Público. Não é justo que o ônus recaia inteiramente sobre o trabalhador que, para chegar pontualmente ao trabalho, precisa sair cada vez mais cedo de casa. E, ainda, chega cada vez mais tarde em casa, privando-se e aos familiares do tempo para suas necessidades diárias, incluindo convívio familiar, lazer e repouso (É um tema que merece discussão ampliada);

Os empregadores:

1) Disponibilizar bicicletário para os seus trabalhadores;
2) Disponibilizar locais para banho e guarda-volumes, além de bicicletários, para viabilizar o hábito de deslocamento a pé ou de bicicleta;
3) Promover políticas de dias de trabalho em casa, sempre que isso for viável ao tipo de atividade. Estar presente no trabalho nem sempre implica em trabalho, produção e resultado;
4) Reduzir e flexibilizar a jornada de trabalho, inclusive em horários corridos, aumentando as opções de escolha de horários de trabalho, o que permite uma melhor distribuição das pessoas em deslocamento, no decorrer do dia.

Os eleitores:

1) Votar em representantes políticos comprometidos com soluções sustentáveis e responsáveis com o bem-estar, saúde das pessoas e preservação do meio ambiente;
2) Não votar em políticos que já tiveram a sua chance e nada fizeram para resolver esses problemas. Ao contrário, se autopromoveram e se locupletaram a partir da função pública;
3) Participar ativamente da vida política. Quando dizemos que não gostamos de política e nos omitimos, delegamos aos incompetentes e aproveitadores as decisões que mudam para pior as nossas vidas: dá no que estamos vendo aí!

4) Não havendo outra solução, por que não iniciarmos ações populares, conforme previsto em nossa Constituição Federal?

O Poder Público:

Deixar de fingir que o problema não é dele e adotar todas as medidas já conhecidas para mitigar e/ou solucionar os problemas direta e indiretamente ligados ao trânsito, como todos aqueles citados no início do texto. Não podem ser apenas medidas pontuais. São problemas que requerem soluções holísticas e efetivas. Exigem visão de longo prazo, bons diagnósticos, ótimo planejamento,  e trabalho cooperativo e coordenado. Exigem a participação de diversas pessoas, autoridades, entidades e esferas governamentais: Ministério Público, Poder Judiciário, Poder Legislativo e Poder Executivo, incluindo secretarias ou ministérios, órgãos de trânsito, planejamento, administração, obras e infra-estrutura, meio ambiente, saúde, ação social, educação e comunicação, bem como do Terceiro Setor, Escolas Públicas e Privadas, Sindicatos, dentre outras, além de trabalho árduo e incessante de todos. Sem esquecer do exercício da cidadania.

Não podemos deixar de enfatizar a necessidade de priorizar os transportes coletivos, disponibilizar vias exclusivas para esses, proporcionar mais ciclovias e muito mais segurança para ciclistas e pedestres, além de cobrar mais pela circulação do automóvel usado individualmente em dias e horários de grande fluxo, bem como promover mais medidas educativas e corretivas para reduzir a violência no trânsito.

Tudo isso tende a diminuir o número de veículos em circulação, reduz a perda de tempo em congestionamentos, minimiza o stress, contribui para melhorar a saúde coletiva e é bom para o meio ambiente.

Não pretendo ignorar outros direitos e necessidades, nem prever todas as soluções possíveis, tampouco suas eficácias. Portanto, conto com a sua colaboração cidadã, para aumentar e melhorar esta lista e discussão.

Mas temos uma outra alternativa: fingir que o problema também não é nosso e esperar para ver como estaremos vivendo daqui a 5, 10 ou 15 anos. Para depois fazermos o balanço entre perdas e ganhos. É pagar para ver.

E aí, você topa ou não topa se engajar neste movimento?

Veja mais sobre o tema em:

Caminhar na ida e volta do trabalho
Trânsito sem Controle – JC Especial

Nesta foto panorâmica que postei no Flickr, temos uma rara visão de dois arco-íris sobre o Parque da Jaqueira em Recife/PE, num dia de chuva e sol. Algumas gotas pingaram sobre a minha objetiva, mas foi por uma boa causa.

*Parece a bandeira de Pernambuco? Imortal na imagem e em nossas mentes, fugaz como o tempo.

Da minha Janela, arco-íris (From my Window, the rainbow)
(Clique na foto para conhecer minha galeria de fotos no Flickr)

É o verde lutando contra o concreto, sobrevivendo teimosamente. É ele quem possibilita tais fenômenos. No passado, ouvíamos mais trovões em Recife e Olinda, as chuvas eram mais regulares, a vida se multiplicava tremendamente com as chuvas, por todas as partes. A vida era mais saudável sob diversos aspectos, afirmação que não ignora os avanços decorrentes do progresso científico e tecnológico, nem o aumento da esperança de vida (veja abaixo o conceito de saúde).

Áreas verdes como estas são cada dia mais raras, e devemos lutar não só para preservá-las, mas sobretudo para ampliá-las. O concreto embrutece, o verde enriquece e faz nossas vidas valerem mais a pena.

Já morei no Rio de Janeiro e em São Paulo. E Recife está ficando (ou já ficou) com os mesmos problemas dessas grandes cidades: violência, estresse, um ambiente desfavorável à vida saudável. E saúde, como me ensinou um sanitarista, é “Viver Mais e Melhor”. Não basta “Viver Mais”. Tem que ser Melhor, também. E é difícil conseguir isso com todos os problemas e todas as preocupações que a cidade grande traz. Basta experimentar uma viagem por lugares naturais como praia ou campo, e ver como retornamos revigorados. Quanta diferença com a vida puramente urbana.

Cada vez nos distanciamos mais de nossas origens naturais. Passamos a considerar naturais os adensamentos populacionais patológicos e toleramos o ambiente feio, cheio de fios, de outdoors, de pedras, com poluição do ar e das águas, com poluição luminosa… Já não se vê nos céus das grandes cidades o que as pessoas de interiores mais distantes ainda vêem: galáxias, nebulosas, muitas vezes a olho nu. Poluição sonora… estresse, irritação… E não entendemos o motivo das pessoas se tornarem cada vez mais irritadas, frias, desconfiadas, intolerantes. É um ambiente inóspito, impróprio para a expressão de muitas das melhores qualidades dos seres humanos.

E a foto escolhida nos lembra que a cidade pode ser mais bonita, mais natural. Em Recife, felizmente, o atual prefeito decidiu reservar uma nova área que seria destinada à construção de um centro comercial para ser um parque natural, no caso, o Parque da Tamarineira, mais verde para o recifense!

Polêmicas à parte, relativas às possíveis vantagens de um centro de compras (sempre o consumo!), sobre mais renda, mais emprego, mais riqueza… Nenhum modelo de desenvolvimento que pressupõe a necessidade de crescimento continuado como condição para o bem-estar social e desenvolvimento humano é sustentável. Além de ser perverso e auto-destrutivo.

O nosso ambiente tem uma capacidade de suporte limitada (capacidade de suporte é um conceito bem conhecido da Biologia Populacional: é quanto o ambiente pode sustentar em quantitativo de certa população. Próximo e acima deste limite surgem ou se tornam mais frequentes certas patologias que afetam severamente as populações. Há doenças que só persistem com elevadas densidades populacionais. As consequências são doenças, custos impagáveis, mortes. Ninguém pense que cenas como a da peste na idade média não podem voltar a ocorrer. Basta uma guerra ou uma catástrofe natural. E isto ocorre sempre, mais dia, menos dia.

É típico dos países subdesenvolvidos concentrarem a maior parte de suas populações em grandes cidades. Por isso, na minha opinião, parabéns ao Prefeito João da Costa pela corajosa decisão de não seguir os interesses exclusivamente econômicos ou quaisquer outros, que não a saúde das pessoas e do ambiente.

Não é exagero a fábula do filme “Onde está Wall-E?”. Os seres humanos expulsos do próprio planeta por eles envenenado, vagando por séculos numa espaçonave, até que um dia a vida volta a ser possível naquele lugar. Começar tudo outra vez. Quem sabe seguindo outro modelo de civilização. O preço foi alto, embora já não mais lembrassem o que era a vida como fora concebida pela natureza, tão acostumados estavam com o exílio no espaço. Mal podiam sustentar seus corpos obesos com esqueletos atrofiados, dada a falta de atividade física. Nem sabiam mais o que era interação social, com outro ser humano de verdade.

Que nós reflitamos e dediquemos maior atenção a questões como estas. O motivo? Imagine o arco-íris e o parque cheio de árvores e pássaros que você pode ter em sua janela. E o cheiro do ar puro que você pode respirar. E toda a vida e convivência de qualidade que podem existir nestes espaços.

Não esqueçamos: “Saúde é viver Mais e MELHOR”.

*PS: um colega chamou a atenção que a foto tinha até um quê da bandeira de Pernambuco, o que eu não tinha notado.  Uma bandeira natural com um toque urbano.

Summary

In this panoramic view, a rare vision of two rainbows, one stronger than the other, at jaqueira park in Recife/PE, Brazil, in a rainy and sunny day.
It is the green fighting against the concrete, surviving willfully.
Green areas as these are rarer today, and we should fight not only to preserves them, but above all to enlarges them.
The concrete brutalizes, the green enriches and makes our lives worthwhile.