Arquivo de janeiro, 2011

Gestão para sustentabilidade: série de três vídeos, com duração de pouco mais que cinco minutos, cada um, produzidos pelo Banco Real/Santander.

Tenho assistido a alguns vídeos curtos sobre sustentabilidade, cada um apresentando uma visão própria sobre o tema:

– Uns, mais despretensiosos, interessados apenas em educar ou informar os aspectos conceituais relativos ao tema;

– Outros, incisivos e críticos, na visão de alguns representariam opiniões de pessoas ou grupos considerados fanáticos, pessimistas ou antipáticos, embora parte deles eu considere dotados de uma boa dose de realismo, razão e compromisso com o interesse coletivo;

– Há também aqueles “de bem com a vida” ou “paz e amor”, um tanto otimistas quanto ao caminho rumo à sustentabilidade, que já estaríamos tomando, nós e as empresas amigas do meio ambiente.

Para estes últimos, fico com a impressão que bastaria mudar o modo de ver as coisas – usando as lentes “positivas” da sustentabilidade, além de adotar algumas atitudes como deixar o carro em casa duas vezes por semana, aí já teríamos garantido um futuro melhor (não que deixar o carro em casa não contribua, mas não basta).

Diante de tantas visões, e sabendo que devemos valorizar a diversidade de opiniões e antagonismos ideológicos, não seria honesto, tampouco isento, abordar apenas uma face da moeda, aquela incondicionalmente contrária ao crescimento econômico (o preferido das empresas).

Por isso, resolvi postar um vídeo do Banco Real Santander sobre sustentabilidade, que traz a visão de que já temos a solução para os problemas ambientais. Entretanto, não vou me eximir de emitir as minhas impressões sobre o mesmo.

Assista aos vídeos abaixo:

Uma estratégia utilizada no vídeo é confrontar visões pessimistas (do mal?) com aquelas otimistas (do bem?), tratando como mero alarmismo e pessimismo, ou quem sabe até mesmo ridicularizando, as (pré)visões de pessoas e grupos quanto ao preocupante futuro do meio ambiente. Cito algumas:

A eventual transformação da Amazônia num deserto. É possível que, quando o Real/Santander produziu o vídeo, ainda não tivesse ocorrido a maior seca do Rio Negro, que em Manaus/AM, atingiu o seu nível mais baixo desde 1902, segundo a Revista Veja, de 29/12/2010: “Mais de 71.000 famílias ficaram isoladas e tiveram dificuldades para obter água potável e alimentos – que normalmente chegam em embarcações fluviais”;

A inundação de cidades litorâneas, quando as pessoas poderão passear de gôndolas em Recife. O Banco talvez não saiba, mas Recife já é conhecida como a “Veneza Brasileira” e já dispõe de passeios de catamarã em seus rios, embora ainda não de gôndola. Mas deixando de lado o comentário irônico, o litoral de toda a Região Metropolitana de Recife já sofre graves consequências da erosão marinha. Outrora lindas praias de areias brancas e águas mornas e cristalinas, que um dia eu pude apreciar e desfrutar (na minha opinião, algumas eram tão bonitas quanto Porto de Galinhas), foram cercadas por quilômetros de diques de pedras enormes, trazidas de lugares distantes (Não sei a que custo ambiental). Para evitar destruições ainda maiores de propriedades particulares e vias públicas, estes diques foram construídos sobre os arrecifes naturais de arenito, presentes na costa nordestina. Ainda assim, a erosão continua e se espalha para áreas como as praias de Pau Amarelo e a Ilha de Itamaracá, ao norte de Recife, contíguas àquelas áreas que foram praticamente represadas, uma após outra, ano após ano, como as praias dos Milagres, Carmo, Bairro Novo, Casa Caiada, Rio Doce, Janga… ;

A possível invasão de nossas praias por morcegos “vampiros”, de filme de terror mesmo (e não simplesmente morcegos hematófagos).  O Banco talvez ignore que estes morcegos hematófagos já foram documentados em cidades litorâneas brasileiras, até mesmo se alimentando de pessoas, inclusive na capital da Bahia, Salvador. Neste caso, os morcegos apresentavam um comportamento de horários de alimentação notavelmente diferentes dos morcegos vivendo em condições naturais, pois estavam se adaptando aos horários da atividade humana nos grandes centros urbanos, intensamente iluminados. Embora eu desconheça previsões de invasões por morcegos.

O personagem do vídeo é Roberto, que é negro. Este, apesar de tudo (ganha menos, acorda de madrugada,  etc…), tem visão e comportamentos otimistas. Além disso, o vídeo retrata Roberto como alguém que tem muito em comum com todos nós brasileiros, reproduz argumentos em favor dos direitos sociais e, é claro, apresenta contextos e soluções possíveis à sustentabilidade, talvez para nos lembrar de que está do lado certo.

A propósito, Roberto toma café em casa, sempre. E, no vídeo, uma despretensiosa manchete no jornal que Roberto está lendo: “Produção global de alimentos cresce 170% em 40 anos”, e um gráfico ilustrando um crescimento exponencial desta produção, ano após ano, sem parar. Seria um lembrete de que não há com o que se preocupar, afinal, não nos faltará alimentos, com toda tecnologia que temos?

Para os mais desavisados, é bom lembrar que existe algo denominado capacidade de suporte do meio ambiente:

Num ambiente com abundância de recursos, uma população (de bactérias, animais, vegetais, etc.) normalmente irá crescer pouco no início e depois atingirá uma fase intermediária de crescimento exponencial (como na manchete do jornal de Roberto). Mas, devido à capacidade de suporte do ambiente ser limitada, devido à limitação de recursos e até mesmo de espaço físico, vai chegar um ponto em que não mais será possível crescimento populacional. Estas populações tenderão a se estabilizar. Ou seja, há um limite para tudo, inclusive para a quantidade de pessoas, animais ou produção agropecuária no meio ambiente. Por mais avançadas que sejam as tecnologias, sempre haverá um limite. A menos que colonizemos novos planetas.

Concluindo, a mensagem é: economize água e energia, cuidado com o lixo, consuma com moderação, tenha responsabilidade social, poupe, abra uma poupança… E claro, contrate ou compre sempre produtos ou serviços de empresas que adotam práticas sustentáveis Além disso, jogue fora suas lentes negativas!

E quanto ao crescimento econômico?


Estou convicto da incompatibilidade entre crescimento econômico continuado versus preservação ambiental e sustentabilidade. Já pelas lentes do Santander, parece não ser bem assim. O narrador menciona que o crescimento econômico não necessariamente produz bem-estar social. Mas assim, pode dar a entender que se fizermos tudo certo e se utilizarmos as lentes certas (pensamento positivo), o crescimento econômico (continuado – é uma premissa da doutrina) pode sim ser sustentável.

A despeito das críticas, e feitas as ressalvas anteriores, assistir ao vídeo poderá fazer com que muitas pessoas, até então inadvertidas sobre os conceitos de sustentabilidade, passem a atentar sobre os efeitos das suas condutas sobre o meio ambiente e sobre o bem-estar social. E que é possível adotar práticas tendentes à sustentabilidade.

Tendo assistido ao vídeo e refletido sobre a percepção do mesmo através das minhas lentes, concluo:

De fato, não cabe apenas chorar o leite derramado. É preciso ter uma visão positiva de que todos nós podemos fazer algo pelo Planeta. Mas também é preciso ter uma visão crítica, não necessariamente pessimista, da gravidade dos danos ao meio ambiente planetário, causados pelo modelo econômico de produção e consumo a qualquer custo. Estão por todos os lados as evidências e sinais de que algo está muito errado, não é coisa de pessimistas ou lunáticos.

Também estejamos atentos aos interesses subjacentes a qualquer discurso. Ter consciência e reconhecer as tragédias ambientais, e também adotar uma visão positiva e proativa quanto ao que cada um de nós pode fazer para a sustentabilidade ambiental não são posições antagônicas. Não é algo que devamos escolher “fique com isto ou então fique com aquilo”.

Mas, afinal, cada um vê a realidade através das lentes que prefere usar.

A interpretação é com você, leitor.

Ao saber quanta água é consumida* para produzir um hambúrguer, ou um par de sapatos, ou uma xícara de café ou diversas outras coisas, percebi quantas coisas podemos fazer diferente, contribuindo para o uso racional dos recursos naturais, para a preservação do meio ambiente e em favor do bem-estar da nossa própria espécie.

São Francisco de Assis acreditava que a riqueza desperta a cobiça: ele dizia, já naquela época (séc. XII e XIII), que o apego aos bens materiais afastava a sociedade de Deus. Ele foi considerado um lunático pelo próprio pai. E tantos outros líderes que pensavam muito além dos seus tempos também o foram, incluindo Jesus.

Hoje, a ânsia desenfreada pelo consumo afasta as pessoas de suas próprias humanidades e da comunhão com o seu  meio ambiente.

Gravura de São Francisco de Assis

São Francisco de Assis, do site http://blog.cancaonova.com

O que podemos fazer, então?

A título de exemplo, considerando que a água potável é o nosso bem mais precioso e escasso em todo o planeta, poderíamos economizar:

a) 15.500 Litros de água, comendo 1kg de carne bovina a menos, substituindo uma porção desta por outra fonte protéica, com menor pegada ecológica;

b) 8.000 Litros de água, usando nossos sapatos por mais tempo, adiando a compra de um par de sapatos novos ou, ainda, doando sapatos que não usamos para quem precisa;

c) 2.400 Litros de água, reduzindo um hambúrguer de nosso consumo em fast-foods;

d) 518 Litros de água, trocando o suco de laranja industrializado pelo suco de laranja natural, feito em casa;

e) 140 Litros de água, tomando um cafezinho a menos;

f) 35 Litros de água, deixando de tomar 1/2 litro de Coca-Cola, substituída com vantagens por água pura (sem falar na economia da garrafa PET, que vai deixar de poluir o ambiente).

(As referências são da Revista Veja, edição especial 2010, baseada em Hans Schreier, Les Lavkulich and Sandra Brown / Water footprint Network / FAO / UNESCO)

O vídeo abaixo ilustra muito bem o que estamos falando (da série Consciente Coletivo do Instituto Akatu, HP e Futura):

Tudo o que nós consumimos e tudo aquilo que fazemos consome água e outros recursos naturais, em maior ou em menor medida. Percebemos que é fácil darmos a nossa contribuição para a sustentabilidade ambiental, por menor que essa possa parecer.

Em post anterior comentei sobre “pegada ecológica” (Veja aqui o tamanho da sua Pegada Ecológica!).

Será que consumimos pensando no meio ambiente, consumimos apenas o suficiente, apenas o que nos basta para o dia-a-dia?

– Como utilizamos a água? Re-aproveitamos a água? Deixamos a mangueira ligada um tempão no jardim, ou lavando a calçada, ou o carro? Durante o banho, fechamos a torneira quando nos ensaboamos?

– Deixamos luzes e equipamentos ligados em vários cômodos, ou procuramos poupar energia?

Procuramos maximizar as caminhadas, usamos transporte coletivo, andamos de bicicleta, damos carona ou usamos o carro sozinhos, em todas as ocasiões?

– E quanto a presentes, objetos diversos e compras de R$1,99?

Pois bem, considerando o perfil da sociedade ocidental dos dias de hoje, com a nossa pegada ecológica atual, não dá para continuar.

Lais Mourão Sá (A desordem criadora: crise ambiental e educação), cita David Orr (1992):

A crise de sustentabilidade socioeconômica e ecológica que afeta gravemente a modernidade pode ser interpretada também como uma crise psíquica e espiritual. Esta crise de sustentabilidade teria suas raízes na perda dos vínculos éticos que protegiam e regulavam as relações de domínio sobre a natureza, e que foram parte da experiência de nossa espécie, nas sociedades que antecederam o atual modelo civilizatório. Assim, pode-se dizer que a crise atual é fruto de condições patológicas da consciência humana, que anularam a força instintiva de sobrevivência coletiva da espécie, levando-a a destruir as próprias condições ecológicas que sustentam a sua existência no planeta “.

(Ambiente e Educação, Rio Grande, 9: 69-84, 2004)

Com esta reflexão eu concluo, fazendo um apelo para que todos adotemos as melhores práticas ao alcance de cada um, para que nós enfrentemos com determinação e consistência a nossa crise ambiental, que também é espiritual. Não se pede que nos despojemos de todos os bens materiais, como São Francisco de Assis. Mas podemos nos limitar a consumir apenas aquilo que basta para o dia-a-dia de uma vida saudável.

Na dúvida, antes de decidir pelo consumo, façamos a seguinte pergunta:

O que pretendo consumir é apenas o suficiente, apenas o que me basta para o dia-a-dia?

Nossa decisão tenderá a ser consciente e poderá mostrar o caminho da sustentabilidade.

* Pegada ecológica de água (Water footprint): volume total de água que é usado para produzir alimentos e serviços consumidos pelas pessoas, pelo setor produtivo ou por uma nação.